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Herberto Sales

A MORTE NA GRUNA

Começaram a entrar na gruna.

Um bafo de umidade retida os envolve. Filó vai na frente, seguido de perto por Joaquim Boca-de-Virgem e Neo. Seguram a candeia com uma das mãos, e com a outra amparam o corpo para não rolarem pelo lajedo. Agora já é preciso curvarem a cabeça, porque a gruna se torna cada vez mais baixa. Filó é o rompedor. Sua candeia alumia o caminho difícil. Dela se desprende uma fumaça densa, o cheiro do azeite se misturando ao do limo que cobre as pedras. O ar se faz mais pesado, como que palpável. Entre o teto e o chão há apenas uma fenda, como se o caminho tivesse terminado ali. Mas é necessário avançar mais - e Filó avança, agachando-se, a princípio, para logo se estirar de comprido sobre a laje. Se aparecer de súbito uma cobra, uma cabeça-de-patrona ou uma jaracuçu, cuja picada “quando não mata, aleija”, ele fará o que todo gruneiro tem obrigação de fazer - de saber fazer. Procurará encandear os olhos da cobra com a luz da candeia, até poder pegá-la pela cabeça com mão firme, esmagando-a contra a pedra. Não há outra saída. Atrás dele, também de rastos, vêm os demais companheiros, com o rosto a um palmo de distância da planta dos pés uns dos outros, formando a fieira por meio da qual se farão chegar os sacos de cascalho à boca da gruna. Os sacos são de algodãozinho, e de pequenas dimensões, porque de outro modo não seria possível movimentarem-se com eles ali. No serviço de gruna, o garimpeiro é obrigado a abolir o carumbé comumente usado para o transporte de cascalho. Filó sabe que, se não pode recuar, em virtude de estarem atrás dele os outros, também não lhe é possível avançar com rapidez: seu peito e suas costas se roçam nas pedras. Vai empurrando a trouxa de sacos e os frincheiros, e calcula já ter avançado uns trinta metros pela gruna adentro. É noite, mas ainda que fosse dia a escuridão da gruna seria a mesma: é qualquer coisa sempre igual, como a eternidade. Lá fora, o velho Justino deve estar aguardando com ansiedade a chegada dos sacos. Ignora o que se passa dentro da gruna, quando muito imagina que os garimpeiros possivelmente estão perto do cascalho - isso lhe interessa bastante. Dos gruneiros só terá notícias quando os sacos começarem a chegar lá fora, como cartas. De repente, um bafo mais acentuado de umidade entra pelas narinas de Filó. Ele se arrasta mais um pouco, e, finalmente, consegue ficar de cócoras. Nesta posição, movimenta-se com dificuldade durante alguns minutos, esgueirando-se através de uma passagem cheia de obstáculos, até que, por fim, se ergue.

Chegou ao salão - espécie de coração da gruna, vão úmido e tresandando a lodo, em cujo interior há um montículo de cascalho recolhido das frinchas. Filó começa a encher o primeiro saco, quando a cabeça de Joaquim emerge do fundo do lapeiro que dá acesso ao local onde se realiza a extração do cascalho. Pela primeira vez se falam.

- Está vendo que frio danado? - disse Filó.

Encontram-se como que encurralados no âmago da gruna - seres insignificantes ao lado das grandes rochas úmidas e escuras, sobre as quais veem projetadas suas próprias sombras. Joaquim põe a candeia no chão:

- Frio é o menos. O pior é que carbonato continua sem preço.

E acrescenta:

- Neco me disse. Se a gente pegar algum - e suspendeu o saco que o outro enchera - o velho Justino me disse que vai guardar até o preço subir. Não estou gostando nada disso.

- Na minha opinião - observou Filó - se a gente pegar algum, Deus nos livre e guarde, a gente deve vender por qualquer preço. Em último caso, até trocar por comida.

E começando a encher outro saco:

- O coronel, se quiser, que espere a alta: nós não podemos esperar coisa nenhuma.

De novo o silêncio recai. Agora só se ouve o ruído do frincheiro tirando cascalho: é como algo que estivesse arranhando o interior de uma sepultura. A terra escura e úmida vai sendo reunida com o auxílio da mão, e, por fim, é colocada dentro do outro saco. Em alguma parte, há um ruído incessante de água pingando. O novo saco é passado a Joaquim, que se encaminha para a boca do lapeiro e o entrega a Neco. Filó continua a esgravatar as frinchas. Já está quase no fim, mas o velho Justino quer que a piçarra fique totalmente limpa, pois onde há qualquer restinho de cascalho há a probabilidade de se achar o diamante - não se deve facilitar. Vai-se mais um saco, e volta-se a ouvir o ruído do frincheiro - insistente e enervante arranhar. Joaquim pensa que, se a gruna fosse mais espaçosa, não era preciso tanto trabalho: lavariam o cascalho ali mesmo. De repente, o bafo de umidade se torna mais acentuado, ao mesmo tempo que os dois homens escutam o rumor de qualquer coisa que começa a correr. Entreolham-se espantados, e Filó compreende num relance: foi a chuva que desabou lá fora. Tão rápido como o seu pensamento, o fio da minação desliza por entre as pedras e, à luz das candeias, torna-se uma realidade a presença ameaçadora da água.

- Corre, Joaquim! - grita Filó: sabe que, nesse momento, isso é tudo que tem verdadeiramente para fazer.

O outro parece vacilar - não era essa a espécie de morte que imaginara ter. O rumor da água continua a crescer dentro da gruna - fio de água transformando-se em enxurrada. Filó grita de novo:

- Corre, diabo!

E com íntima impaciência:

- Corre, que é vem água!

Os sacos e os frincheiros são abandonados, e os dois homens se metem pelo lapeiro adentro - Filó com a candeia na mão e Joaquim na frente, repetindo o grito de alarma. As águas, correndo atrás deles, arrastam consigo o resto do cascalho. Através da fumaça da candeia, Filó enxerga os pés do companheiro. Joaquim pensa em Rita Pandeiro, e imagina que não mais se encontrará com ela. Ela vai saber de sua morte pela boca dos outros. Joaquim vê a morte diante dos olhos, e lembra-se de outros garimpeiros que, indo à procura de cascalho dentro das grunas, de lá foram retirados como postas de carne. Nunca mais verá Rita. Vai morrer, Sinhá do Ouro encomendará a alma dele no velório. A última vez que esteve com Rita foi na semana passada; procura reconstituir o que ela lhe disse antes de sair para o rio, com a gamela de pratos na cabeça. Tudo agora vai terminar, porque a água continua a avolumar-se; mas, de certo modo, sente-se contente por se ter desviado de um bico de pedra - não chegara realmente a acreditar que pudesse passar por ali. Neco vai na frente. A enxurrada se arremete no seu encalço. Para espanto seu, até agora não encontrou nenhum dos companheiros que formavam a fieira para a passagem do saco: era como se alguém houvesse determinado que, a partir daquele instante, só ele, Joaquim e Filó deviam ficar dentro da gruna.

Sente-se apanhado irrevogavelmente na armadilha: ia morrer como um bicho - sem vela nem sentinela - e esse pormenor lhe causava uma espécie de decepção. Por mal dos pecados, sua candeia apagara-se: mais pelo instinto que por outra coisa, avançava através da escuridão do lapeiro. Evidentemente, os outros gruneiros tinham fugido com muita rapidez ao ser dado o alarma, pois, do contrário, também estariam lutando ali para não morrer: isso lhe parecia de certo modo injusto. Enterra os pés na areia, para dar impulso ao corpo. Tem vontade de gritar, mas não o faz, por considerar essa ideia totalmente inútil: no bojo da gruna outra coisa não se ouve que não seja o rumor da água. Nesse momento, Filó sente que algo mole flutua ao seu lado, e imagina logo que só pode ser um dos sacos que abandonou na fuga. O mesmo saco, encharcado de areia e água, já esteve antes colado ao seu calcanhar, mas ele atirou-o para longe com um arremesso da perna: dava-lhe a desagradável impressão de uma cataplasma. Vai avançando sempre, com a candeia na mão - mas, de súbito, nota que Joaquim se acha imobilizado à sua frente, atravancando o caminho. Num relance, compreende que o companheiro está enganchado. Naturalmente, a areia trazida pela enxurrada obstruiu a passagem. Se Neco conseguiu atravessar, era devido ao fato de ser mais magro do que Joaquim. Este sente sob o peito o atrito da areia, e nas costas a pressão do teto da gruna. A muito custo, consegue manter o nariz fora da água, lutando para não morrer asfixiado; é debalde, porém, o esforço que faz para se libertar da terrível prisão: não pode avançar nem recuar. Imediatamente, Filó lança mão do único recurso para o caso: leva ao calcanhar do companheiro a chama da candeia fumegante - e o pé deste se contrai, tisnado, enquanto se espalha na gruna um cheiro de carne queimada. Uma dor extremamente aguda percorre o corpo de Joaquim. Ele deixa escapar um grito, e em vão se debate entre as pedras, como um rato na ratoeira. Já esperava que o outro lhe aplicasse o conhecido expediente. Por esse motivo, Filó insiste, e queima repetidamente o mesmo calcanhar, uma, duas, três vezes. Por fim, soltando um berro, Joaquim dá um arranco e consegue livrar-se: traz a frente e as costas da camisa em trapos. Sem perda de tempo, Filó se estira todo e precipita-se no rumo do companheiro. Sabe que, se lhe acontecer o mesmo, estará irremediavelmente perdido - é o último dos três, não há ninguém para o socorrer como ele fez a Joaquim. A essa ideia, lembra-se de que é mais magro, e isso lhe parece uma vantagem extraordinária. Vai rastejando apressadamente, mantendo a candeia tanto quanto possível acima da água. Mas logo uma sensação de cãibra se lhe apodera do braço e, antes que ele possa mudar a candeia para a outra mão, a enxurrada se avoluma e ele é obrigado a abandoná-la, a fim de manter o corpo soerguido. Conseguiu transpor o lugar do enganchamento, mas agora se encontra no escuro, tendo a candeia desaparecido para sempre na enxurrada. Filó já não acredita na possibilidade de salvamento. Deixa-se arrastar pela água, e por ela unicamente se orienta. No meio da escuridão, como poderá localizar o esbirro que sustenta o emburrado? O emburrado terá desabado? A saída estará obstruída? Que tolice ter acreditado que era bastante forte para vencer todos os obstáculos! Tenta em vão erguer-se, e a água já o impede de respirar. O rumor cresce aos seus ouvidos - a água batendo de encontro ao teto, saltando como uma coisa viva, acometendo por dentro da escuridão. Talvez que, no fim de contas, ele nada mais fosse do que um estorvo à passagem da água. Que horas poderiam ser? Oito... dez... Talvez oito... De repente, pareceu-lhe que nada tinha já que ver com o que pudesse ocorrer ali. Houve então um baque, um estrebuchamento, e a água, por fim, encheu totalmente a gruna.

                                                 ***

Era de manhã, e a luz de um novo dia se derramava sobre a serra, quando retiraram o corpo de dentro da areia. Colocaram-no em uma rede e levaram-no para a cidade. Mais uma vez, o velho Justino ia à procura do coronel para lhe dar notícias do garimpo: morrera apenas um homem. Acima do córrego, guarnecido por um corte de pedras secas, elevava-se contra a claridade do céu um monte de terra escura. Era o paiol de cascalho.

                                                                                    (Cascalho, 1944.)

 

A MORTE DE MARCELINO

Quando, revolvendo as gavetas de velhas cômodas, e os baús e as arcas de guardados da minha família, acumulados com o tempo no depósito do sobrado, comecei a recolher, em Andaraí, muitos anos depois da morte de tio Marcelino, aquele esparso material evocativo da sua vida, a ressurgir do desbotado antigo e grave de fotografias, álbuns, cartas, e dos postais enviados do estrangeiro à minha mãe - considerei, nas boas lembranças suscitadas por aquelas relíquias de intimidade familiar, o sombrio contraste daqueles anos de solidão no palacete, culminados num episódio tão dramático para todos nós. Sim: nunca hei de me esquecer. Estava em aula, absorvido nos meus apontamentos, quando o Professor Costa Pereira irrompeu na sala, transtornado, e me pediu que o acompanhasse sem me deixar sequer recolher os livros e os cadernos:

- Deixe isso aí; depois você apanha. Vamos!

No corredor, andando apressado à minha frente, deixou escapar, nervoso, esta breve frase:

- Seu tio sofreu um acidente.

Quase a correr, transpôs o portão do colégio, e ganhou a rua, sem chapéu, o paletó a descair-lhe dos ombros, desabotoado, e rumou para a Avenida Bastos, que ficava perto. Eu me esforçava por emparelhar-me com ele, ao longo da calçada, sem o conseguir; no meu aturdimento, estranhava que o bom Costa Pereira, homem de morosidades e de estudo, perdido nos seus vagares, se agitasse tanto, naquele ímpeto inusitado. Hoje, compreendo os motivos da sua grande pressa, determinada por uma aflição de espírito que, naquela época, certamente escapava à minha percepção de menino. Ao chegarmos ao palacete, havia alguns curiosos estacionados no passeio; uma ambulância se afastava, branca e veloz. Não era, como as atuais, provida de sirene. Fazia soar uma estridente campainha, a pedir passagem, num alarido de urgência e desespero, amortecido aos poucos na distância, entre o rumor dos bondes, no fim da rua. Ainda com aquele agoniado toque a vibrar nos ouvidos, atravessamos o jardim; e, ao aproximarmo-nos da varanda, senti no ar, como a desprender-se das palmeiras, um cheiro abafado de fumaça. Curioso, lancei os olhos ao recanto onde meu tio habitualmente se entregava ao trato dos seus adubos, na ideia de encontrá-lo ali. O que vi, entretanto, foram uns estranhos sinais de desordem - terra espalhada no chão, vasos quebrados, e em meio àquilo uma peneira chamuscada. Sem dúvida, lavrara no local um começo de incêndio, de que havia vestígios mais evidentes nuns sacos de aniagem enegrecidos pelo fogo. Devia ter sido apagado com a mangueira da rega, a esguichar ainda um fio de água nos ladrilhos, enquanto o velho Alfredo fechava precipitadamente a torneira. Não me foi difícil então localizar o cheiro: todo aquele trecho da varanda cheirava a queimado. E, como primeiro indício de que algo muito mais grave ocorrera no palacete, a cozinheira, trêmula, a um canto, enxugava com o avental os olhos marejados de lágrimas. Um indício mais claro surgiria logo depois: fomos encontrar tia Edite na sala, derreada numa cadeira, chorando, e o Vilela a seu lado, muito pálido, a dar-lhe a beber num copo um calmante. Ia pela casa uma desolação. Havia como um vazio, a indicar, naquela atmosfera pesada, de reposteiros e candelabros, a mudança, o fim de alguma coisa imponderável. Erguendo os braços, na sua aflição, Costa Pereira correu para Vilela:

- Acabo de ser avisado do acidente. Mas que houve?

E Vilela, inda com o copo de remédio na mão:

- Uma desgraça! Uma desgraça! A ambulância acaba de levar Marcelino para o hospital. Vamos para lá agora mesmo.

Numa confusão, com tia Edite chorando inconsolavelmente, saímos todos, sem outro cuidado senão o de ficarmos perto de meu tio. A guarda do palacete foi entregue ao velho Alfredo, empregado de inteira confiança. E logo ele se pôs a fechar as portas e as janelas, num ruído cavo de ferrolhos, que nos acompanhou pelo jardim, até apanharmos, no portão, um automóvel que passava. Impossível recompor, embora com auxílio das informações por mim recolhidas muitos anos mais tarde, o que se passou durante o trajeto. Dele guardo a impressão de um fundo silêncio, a manter-nos todos presos aos soluços de tia Edite, enquanto o carro rodava em direção ao Hospital Português, na Barra. Lá já se encontravam, quando chegamos, João Félix, Pessanha e Lemos, reunidos num pequeno grupo silencioso, em frente à porta de um quarto. Médicos e enfermeiras, em seus aventais brancos, transitavam apressadamente no corredor. À aproximação de tia Edite, amparada por Vilela e Costa Pereira, houve uma certa agitação. Os outros movimentaram-se, cercando-a de cuidados, e, com a ajuda de uma enfermeira, levaram-na para uma sala próxima, onde a fizeram sentar-se num sofá. E enquanto a afastavam, na precipitação daquele ajuntamento, vi, por um instante, abrir-se a porta do quarto, para dar passagem a um médico. Foi tudo muito rápido. Mas bastou para que eu recolhesse, perplexo, numa onda inebriante de éter, a visão de um corpo enfaixado da gaze e ataduras, estendido sobre uma mesa esmaltada de branco. Era meu tio que ali estava. A porta fechou-se logo. Gravou-se-me nos olhos, porém, e agora é como se eu a revisse, associada a uma ideia de sofrimento físico, a cena surpreendida no entremostrar daquele interior asséptico e neutro, fixado numa sinistra imagem de pensos, ferros e aventais. Reunidos na sala, não sei por quanto tempo ali permanecemos. Os amigos de meu tio conversavam em voz baixa: de vez em quando, algum deles ia até o corredor, num passo vagaroso e leve. Ao voltar, os outros o rodeavam, como a pedir notícias, na ansiedade da longa expectativa. Havia, não raro, grandes silêncios entre eles, interrompendo aquele grave cochichar de espera e apreensão. Desdobravam-se nas atenções dispensadas a tia Edite, principalmente Vilela, que se mantinha a seu lado, zeloso de ajudá-la a recompor-se de tão forte abalo. Dizia-lhe uma palavra de conforto, ora tomava-lhe o pulso, ora punha-lhe a mão nas têmporas. Ela continuava a chorar, o rosto afundado num lenço. Lembro-me de uma enfermeira aplicando-lhe uma injeção. E, por mais de uma vez, vieram servir-nos café, tomado em silêncio por todo o grupo, mal se ouvindo então o raspar das xícaras nos pires. Fiquei a um canto, aturdido com o que se passava, e a espaços ia à janela, em busca de uma distração. Punha-me a ver, lá fora, as árvores, a rua, e mais além o farol, numa elevação, recortando contra o céu a grande torre erguida diante do mar. De repente, surgiu, de avental, Dr. Freire. Médico particular de meu tio, acompanhara todos os socorros que lhe foram prestados no hospital, depois do acidente. E tudo se precipitou. Todos correram atarantados para o quarto, ficando na sala, apenas, eu e tia Edite, e o Dr. Freire, que a amparava no ombro, a consolá-la, mas chorando tanto quanto ela. Trouxera ele a pior notícia que se poderia esperar: meu tio acabara de falecer. Transcorridos uns minutos angustiados, o grupo voltou a reunir-se na sala. E recordo-me que, na impressão daquela despedida fúnebre, todos sofriam, num pranto silencioso, a perda do grande amigo. Em meio à confusão reinante, sob os efeitos daquele golpe que se abatera sobre eles, retive a lembrança de João Félix, de pé, ao lado da janela, as costas voltadas para a sala, como fitando lá fora um ponto invisível, a levar de quando em quando o lenço aos olhos. Somente eu, muito menino ainda para me capacitar do horror daquele transe, somente eu, que nunca vira morrer ninguém, e nada sabia do significado da morte, somente eu não chorava. Dir-se-ia que eu apenas estranhasse o fato de uma pessoa poder deixar de viver. Mas as lágrimas que então me faltaram vêm-me agora, não aos olhos, mas ao coração, cristalizadas numa dor sincera, ao lembrar como tio Marcelino, entre as palmeiras que lhe alegraram tanto a vida, foi encontrar tão tragicamente a morte.

                                       (Dados biográficos do finado Marcelino, 1965.)