Início > Abl > Cgi > Cgilua.exe > Sys > Start.htm?sid=92 > Discurso - Fórum Shakespeare

Discurso - Fórum Shakespeare

ABL, 23 de novembro de 2011

Londres e Londrina.

Tempo e Tempestade.

 

Mais do que jogos de palavras ou aproximações poéticas, trata-se da realidade -- aqui representada por esses termos. Uma série de pontes, sólidas porque lentamente construídas e com capricho profissional.

A Academia Brasileira de Letras sente-se honrada com a oportunidade de reunir três grupos teatrais, de dois países - o Brasil e o Reino Unido - e de três cidades - Rio, Londrina - e Londres - pertencendo a distintas faixas etárias, e oriundos de vários meios sociais.

Começando pelo grupo geograficamente mais próximo, Nós do Morro, recordo que ele foi fundado em 1986, com o objetivo de facilitar o acesso à arte e à cultura por parte de crianças, adolescentes e jovens adultos do morro do Vidigal, no Rio de Janeiro. Hoje o projeto se consolidou e oferece cursos de formação nas áreas de teatro (atores e técnicos) e cinema (roteiristas, diretores e técnicos). O Nós do Morro é fruto da iniciativa do ator e jornalista Guti Fraga, aqui presente. A propósito, a ABL congratula-se, como o Brasil inteiro, com a ação recente que levou à reconquista do seu território por parte do povo do Vidigal, agora livre para desenvolver sua criatividade sem qualquer restrição, em Nós do morro ou em entidades semelhantes.

Vem, em segundo lugar, o grupo composto de atores e atrizes da Companhia de Theatro Casa das Fases, fundada em 1986 por João Henrique Bernardi, na cidade de Londrina. Realiza atividades teatrais no campo da pesquisa e da atuação. O elenco é formado em sua maioria por mulheres de mais de 60 anos. João Henrique também está entre nós hoje.

Em terceiro e último lugar, assinale-se um grupo baseado em Londres, sob os auspícios da Entelechy Arts, fundado há 21 anos por David Slater, também nesta sala. Um dos objetivos da organização é criar pontes entre comunidades paralelas que normalmente não se interligariam, estabelecendo elos entre jovens e idosos. Em 2000 foi criada, dentro da Entelechy, a companhia de teatro Seven Ages, com integrantes de 60 a 100 anos.

Comum aos três grupos é o interesse por Shakespeare. Nós do Morro encenou Os dois cavalheiros de Verona em 2006, em Stratford-upon Avon, e depois fez sucesso no Brasil. A Companhia de Theatro Fase 3, de Londrina, juntamente com sua contrapartida inglesa, a Entelechy, levará à cena, nos dois países, A tempestade. Pela primeira vez os dois grupos se apresentarão juntos.

É que a universalidade da obra de Shakespeare faz dele um instrumento perfeito para promover a inclusão social e a integração entre os povos, além de todas as barreiras de idade, classe e nacionalidade. Grande anatomista da natureza humana, Shakespeare descobriu atrás da diversidade das condições de vida uma estrutura passional idêntica em todos os homens. "All the world's a stage/ and all the men and women merely players". Shakespeare não era apenas um autor para a elite, mas imensamente popular na Inglaterra elisabetana, e continua sendo popular hoje no Vidigal. Ninguém entendeu melhor que Shakespeare a relatividade do envelhecimento. Ele não pinta sob uma luz muito lisonjeira os males da sétima idade do homem, em As You like it, mas na mesma peça um personagem se gaba de sua robustez, apesar de sua aparência envelhecida: "Though I look old, I am strong and lusty .. Therefore my age is as a lusty winter." Nossas queridas convidadas de Londres e de Londrina certamente se enquadram nessa categoria. Os atores e atrizes dessa Tempestade não são verdadeiramente velhos; são Prósperos e Mirandas reconciliados com seus corpos frágeis, prontos para explorar novos começos e novas amizades.

Podemos ter hoje uma visão antecipada do que será essa fusão de idades, classes e nacionalidades nas "master classes" ministradas por Justin Audibert, da Royal Shakespeare Company, e igualmente por Cicely Berry, grande dama do teatro inglês, também da RSC. Ela orientou astros e estrelas como Peter Finch e Sean Connery, e foi diretora de voz do filme "O último imperador", de Bertolucci, tendo recebido inúmeros prêmios, incluindo uma Order of the British Empire. Essa visão se aprofundará na mesa redonda coordenada por Paul Heritage, da Queen Mary University. Ele vem encenando espetáculos de teatro e promovendo parcerias entre grupos teatrais no Brasil e no Reino Unido há mais de 20 anos. É o principal responsável pela ida de Nós do Morro a Stratford-upon-Avon. Em 2004, recebeu a Ordem do Rio Branco por sua divulgação da cultura brasileira no exterior.

Todas essas pontes nos interessam e interessarão ao público, tenho certeza. E muito particularmente, desejo aqui e agora agradecer ao acadêmico Sergio Paulo Rouanet, que foi quem nos chamou a atenção para a possibilidade dessa parceria tão enriquecedora e tão de acordo com o que a ABL pretende nestes tempos. Mais que isso, foi quem trabalhou apara ajudar a torná-Ia possível.

Em nome da Academia Brasileira de Letras, cujo primeiro presidente, Machado de Assis, foi um grande leitor de Shakespeare, construindo tipos tão melancólicos como Hamlet e tão ciumentos como Othelo, dou as boas vindas a todos os nossos convidados.

Acadêmico relacionado : 
Ana Maria Machado