No fim dos anos 1990, a pesquisadora Elvia Bezerra fazia natação no Hotel Glória, no Rio de Janeiro. Certo dia, conversando com uma colega depois da aula, comentou que havia publicado um livro sobre Manuel Bandeira, “A trinca do Curvelo”, que reconstitui as vivências do poeta, do escritor Ribeiro Couto e da psiquiatra Nise da Silveira, que foram vizinhos no bairro de Santa Teresa, na zona central da cidade. “Eu conheci Manuel Bandeira”, revelou a mulher, que era paraense e se chamava Luci Soares. Dias depois, ela disse a Elvia que estava lendo o livro e a convidou para um café. Entregou-lhe um envelope com bilhetinhos atrevidos e poemas que Bandeira escrevera para ela entre 1964 e 1966, quando foi seu professor na Faculdade Nacional de Filosofia. Num dos poemas, ele até desiste de ir-se embora para Pasárgada: “Quis um dia ir a Pasárgada/ Só para ter em meio leito/ A mulher que tanto quis/ Mas hoje não quero mais./ Pois só a ti quero agora.”
Bandeira beirava os 80 anos quando se encantou por Luci, que tinha 20 e poucos. Elvia desconfia que a paraense trouxe ao poeta “a última iluminância, o derradeiro alumbramento, para citar vocábulo reconhecidamente bandeiriano”. Rolou até um beijo entre os dois. Ele a conheceu num período de profundo sofrimento. Em maio de 1964, separou-se de Frédy Blank, holandesa com quem manteve uma discretíssima relação por mais de 50 anos. Frédy tinha arteriosclerose, começava a perder a memória e foi viver na Europa com a filha, Joanita. Morreu dois anos depois, deixando viúvo um poeta que nunca havia se casado.
Quando lançou a primeira edição de “A trinca do Curvelo”, em 1995, Elvia já sabia do namoro de Bandeira e Frédy. Durante as pesquisas, travou contato com Joanita, foi visitá-la na Holanda e recebeu dela 28 cartas de Bandeira, telegramas e fotos. Joanita negava o relacionamento da mãe e do poeta e dizia que eram apenas bons amigos. Em respeito a ela (e também a Bandeira, que Augusto Frederico Schmidt descreveu como “ferozmente discreto”), decidiu preservar a vida amorosa do escritor. Até agora. Na nova edição, que acaba de sair, a pesquisadora abre o jogo sobre o envolvimento dele com Frédy e Luci e investiga a presença das duas em sua obra poética. Não à toa, o livro ganhou o subtítulo “Os afetos de Manuel Bandeira”.
Entre 1920 e 1933, Bandeira viveu na Rua do Curvelo (atual Rua Dias de Barros), em Santa Teresa. Nessa época, deu aulas particulares para Joanita, que morava ali perto. Elvia, porém, supõe que o relacionamento de Bandeira e Frédy tenha começado antes da mudança do poeta para o Largo do Curvelo — ele vivia no bairro desde 1908. Em 1913, o escritor nascido no Recife partiu para a Suíça para tratar sua proverbial tuberculose e Frédy, que ia visitar a família na Europa, tomou o mesmo navio. Alguns versos escritos nessa época evocam o mar e a impossibilidade amorosa, sugerindo que possam ter sido inspirados na paixão que nascia entre os dois vizinhos de Santa Teresa.
Loura misteriosa
O poema “Carinho triste” elogia a “boca ingênua e triste”, os “seios miraculosos” e o “ventre claro” da amada, mas lamenta que todos esses atributos “são dele quando ele bem quer”. “Ele” talvez seja o marido de Frédy, Carlos Blank, cujo gênio Bandeira descreveu como “orgulhoso e recalcado”. Já o poema “Ingênuo enleio” menciona a “vela no mar que freme e passa” e em seguida afirma: “E assim nasceu o meu desejo.” Décadas depois, Bandeira admitiu que os versos de “Natal”, escritos no sanatório suíço, foram inspirados por uma “loura deidade”. E Frédy era loura.
Com a passagem dos anos, Bandeira começou a chamá-la de Moussy (avozinha, em holandês) e escrever versos para os netos dela. “Um beijo, em que se resume/ Toda a afeição de uma vida”, diz o poema “A Moussy”, que, na opinião de Elvia, é “a síntese de sua relação com ela”. A vida toda, o poeta a apresentou como uma amiga, mas todos desconfiavam dessa história. “Ninguém tinha coragem de perguntar a Manuel o que era aquilo”, disse Rachel de Queiroz em entrevista à pesquisadora. As cartas do escritor a Joanita não deixam dúvida de que se tratava de um casamento.
— São relatos minuciosos do cotidiano dos dois, mostram a relação de duas pessoas casadas. Bandeira dava conta de tudo na casa de Frédy: sabia se faltava café ou manteiga, os horários de pingar os colírios dela, levava-a ao médico. Era um marido devotado — afirma Elvia.
“Depois da perda de Moussy eu vivo numa tristeza de morte”, admitiu Bandeira numa carta a Joanita em setembro de 1966. Nessa mesma época, terminava o namorico dele com Luci. Ele havia arrumado para a moça um emprego na Academia Brasileira de Letras, mas naquele ano ela se demitiu para trabalhar no setor público. Bandeira a conheceu em 1963. No ano seguinte, no aniversário dela, presenteou-a com o poema “Lucilurdes”: “Ó desejada que ainda/ Não sabes que és desejada.” Esses versos foram reaproveitados em “O fauno”, poema publicado em 1966 que explora a persistência do desejo na velhice e a iminência da morte (temas que provavelmente atormentavam Bandeira àquela altura).
Nos versos “Temas e variações”, de 1965, o poeta apelidou Luci de “Luci de Belém”. “Bem, belelém,/ Viva Belém,/ De onde és, meu bem./ Me queira bem,/ Porque eu te adoro”, diz o poema, transcrito num papel decorado com o desenho de um par de seios — Bandeira gostava de elogiar as “virgíneas tetas” da moça (a expressão é de Luís de Camões). O último poema escrito para Luci foi “Canção do amigo do rei”, aquele em que renuncia Pasárgada. Elvia, no entanto, enxerga a sombra da paraense em outros poemas tardios do autor, como “Soneto sonhado” e “Adeus, amor”, que soa como um despedir-se de uma amante mais jovem: “O amor disse-me adeus, e eu disse: ‘Adeus,/ Amor! Tu fazes bem: a mocidade/ Quer a mocidade.”
Elvia (que insiste não ser crítica literária) se autorizou a interpretar os versos de Bandeira à procura de pistas de sua intimidade após ler a crítica Vânia Pinheiro Chaves: “Toda a vida de Manuel Bandeira está como que transmutada na sua poesia, cuja compreensão mais profunda implica uma informação mais precisa sobre as particularidades da sua existência”. A pesquisadora acredita que o escritor, apesar de sua feroz discrição, talvez achasse graça e aprovasse sua “exegese impressionista”. Bandeira era um poeta que acreditava na inspiração, atento à vida ao redor e sempre pronto a transformar suas vivências e impressões em poesia.
Foi essa característica, aliás, que permitiu que ele atribuísse seu modernismo ao “elemento de humilde cotidiano” do Curvelo. Ribeiro Couto, que introduziu Bandeira nos círculos modernistas, afirmou que foi em Santa Teresa que o amigo “tomaria contato com a vida popular” e “ali permaneceria os melhores anos e os mais fecundos de sua criação poética”. No bairro carioca, Bandeira escreveu os livros “O ritmo dissoluto” (onde a experimentação modernista se intensifica), “Libertinagem”, parte de “Estrela da manhã” e as “Crônicas da Província do Brasil”. Foi lá que ele conheceu Irene, aquela que estava sempre de bom humor e poderia entrar no céu sem pedir licença. Ela trabalhava na casa de Bandeira e ocasionalmente lustrava a prataria de Frédy Blank.
— Bandeira vivia em “atitude de apaixonada escuta”, como ele mesmo disse. Ele fazia poesia a partir do cotidiano. Nesse sentido, sempre foi moderno. O que caracteriza a estética modernista, como a introdução da linguagem coloquial e de personagens populares, era natural para Bandeira, a atenção ao cotidiano era do temperamento dele — diz Elvia.
Bandeira morreu em 13 de outubro de 1968, aos 82 anos. Na época, vivia com Lourdes Heitor de Souza, com quem se relacionava desde os tempos do “casamento” com Frédy. Luci chegou a visitá-lo na casa de Lourdes, na companhia de ex-colegas da Academia Brasileira de Letras. Ela tem 88 anos, mas não quer aparecer. Assim como o poeta que ela convenceu a desistir de Pasárgada, a “Flor de Belém” também se mostra “ferozmente discreta”.
09/02/2026