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A última que morre

 
A democracia não é uma ciência. Muito menos exata, como a matemática. Você pode somar ou subtrair seus elementos sem provocar os mesmos resultados, dependentes de onde, quando e com quem o fizer. Isso, em qualquer lugar do mundo. Imagine então num espaço de grande mudança étnica e cultural em curso que, por sua vez, produz novos conceitos éticos, religiosos e cívicos, que mexem com a vida diária de uma população, como nos Estados Unidos da América de hoje. Hoje, a maior contribuição dos EUA ao mundo contemporâneo não são o capitalismo financeiro, as viagens ao espaço ou os craques da NBA. Mas a ideia de um país com entrada para outros povos, capaz de absorver peles de outras cores, línguas de outras origens, costumes dos outros. Um país que será sempre novo, porque tem como se renovar.
 
Mudanças radicais produzem sempre consequências para o bem e para o mal. Nesse caso, para o bem, acho que é sobretudo a excitação do que ainda pode nos surpreender, os rumos inéditos que a humanidade toma em qualquer canto da Terra. Para o mal, é sem dúvida o medo do que não se conhece, traduzido em providências de impedimento e rejeição, quando professamos um nacionalismo de direita oportunista, que nos diz que o que é diferente de nós não pode prestar. Nessa recente eleição americana, Joe Biden, sem consciência disso, representou, por sua serenidade diante do que lhe favoreceu, a face positiva da mudança. Quanto ao mal, ficou, mais uma vez, com Donald Trump e seu horror ao que não entende, ao diferente e ao inesperado, ao com o que não contava.
 
Na terceira noite de apuração, quando as coisas já iam mal para ele, Trump fez, no salão da Casa Branca, um discurso cheio de mentiras e falsidades tão revoltantes que as equipes de televisão que cobriam o evento desligaram as câmeras e se retiraram revoltadas, antes que o presidente encerrasse sua intervenção hedionda.
 
Durante seu mandato, Trump separou filhos pequenos de seus pais imigrantes, sem nenhuma compaixão. Centenas de crianças centro-americanas estão até hoje em cárceres coletivos, sem que os pais saibam onde se encontram. O mais estranho é que Trump, nesta eleição, ganhou votos importantes em centros de imigrantes, hispânicos e negros, como a Flórida. Durante seu mandato, o presidente ainda protegeu e incentivou grupos neofascistas, como os Proud Boys e os Patriot Players, que, em suas camisetas com o slogan trumpista costurado(Make America Great Again), esfaquearam à morte dois membros do movimento Black Lives Matter em Portland. E Trump ainda assustou seus eleitores mais ingênuos, com a notícia de que, do outro lado, estava o fantasma do socialismo, como se o Muro de Berlim ainda estivesse de pé.
 
É claro que não é essa a nova América que surge dessa eleição e que queríamos saudar. Mas a América que sai dela gloriosa pela confirmação de uma outra nação que se constrói aos poucos, na mistura de tudo. Não é possível esquecer a gigantesca militância de Nova York ou da Califórnia, mas também não se pode desprezar a importância das minorias, protagonistas nos resultados da Geórgia ou da Pensilvânia, redutos clássicos do voto conservador.
 
Nosso coração ficou mais leve quando comecei a me dar conta das forças políticas que animam o novo, quando jovens americanos vibraram porque Joe Biden se referiu, em sua curta fala de menos de dois minutos, à “hora de ouvir um ao outro, de ver, respeitar e cuidar um do outro, ficar juntos como uma nação”. Conforta saber que foi esse o discurso que fez a Miragem Vermelha (os Republicanos de Trump) esbarrar na Muralha Azul (Democratas de Biden), fazendo uma diferença de cerca de 5 milhões, entre uns e outros, no voto nacional.
 
Ao longo de sua história, os Estados Unidos não são um país que se caracteriza por ter sofrido muito, embora tenha feito tanta guerra. Já o Brasil quase não fez guerra, mas é muito louco, como diz Nelson Motta: “De tanto sofrer, ficou pirado”. Podemos dizer que, em vez de ciência, a democracia é um desejo que cada povo alimenta como pode e quer, em nome de sua liberdade e da liberdade do outro, em benefício de um novo mundo a construir. Vivemos da esperança nesse novo mundo
O Globo, 09/11/2020