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Que o ano todo seja dela

Embora o Dia Internacional da Mulher seja considerado por muitos como mais um dos sinais da desigualdade entre gêneros — afinal, o homem não precisa, pois dispõe de todos os outros do ano —, a data serve para mobilizar as manifestações de protesto contra o machismo, como as que ocorreram na última quarta-feira em 16 estados brasileiros. Também serve para lembrar a terrível realidade da condição feminina no país, vítima de várias formas de violência e até de crimes, alguns hediondos: estupro, exploração sexual, feminicídio, agressões por parceiros e parentes, perseguição. As estatísticas são assombrosas: cinco espancamentos a cada dois minutos, um estupro de 11 em 11 minutos, um feminicídio a cada 90 minutos, 179 relatos de agressão por dia, 13 homicídios diariamente. Só no ano passado, uma média de 500 mulheres foi agredida, física ou verbalmente, por hora no Brasil — foi o que li. E mais: duas em cada três pessoas presenciaram mulheres sendo agredidas. E tudo isso depois dos 11 anos da Lei Maria da Penha, que teve efeitos importantes contra a impunidade.

Sou de uma geração preconceituosa, que cultivava estereótipos e até hoje, quando elogia, ofende, e mesmo quando quer agradar, é indelicado. A essa turma pertencem alguns mais novos, como o presidente Michel Temer, que esta semana cometeu a gafe de atribuir à mulher um papel subalterno e submisso, achando estar exaltando virtudes. Foi muito criticado por isso e, nas redes sociais, pagou o preço por sua visão retrógrada. Os “Fora Temer” vibraram, com razão, mas talvez tenham esquecido o episódio do ano passado em que o ex-presidente Lula, ao telefone, pede que um ministro petista providencie ajuda para ele: “Cadê as mulheres do grelo duro do nosso partido?”. Como diria Ancelmo Gois, “poesia pura”. 

Como não é uma questão de partido ou ideologia, mas de mentalidade e cultura, os dois políticos viram passar (ou melhor, não viram) a revolução de costumes dos anos 60, em que a mulher toma consciência de seu valor, derruba tabus de comportamento, assume o próprio corpo, briga por seus direitos em praça pública, disputa seu lugar no mercado de trabalho. Em suma, luta de corpo e alma para ser igual nos direitos e diferente na maneira de pensar e de ser. 

Espero que Alice, minha neta de 7 anos, não venha a precisar mais tarde de um dia especial para comemorar seu feminismo. Aliás, como ela manda em mim, depois da avó, já deve estar treinando para os novos tempos.

O Globo, 11/03/2017