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O inferno astral

A definição é do site Drive Premium e contém a triste ironia de que o “inferno” é comandado por um pastor (licenciado) e se caracteriza pela sucessão de acontecimentos trágicos, entre os quais o incêndio do Ninho do Urubu, o temporal devastador, o desabamento de dois prédios construídos ilegalmente pela milícia na Muzema, os 80 tiros do Exército contra o carro que conduzia uma família para um chá de bebê.

Se não se pode responsabilizar Marcelo Crivella pelo temporal em si, por exemplo, não há como eximi-lo da culpa pelos efeitos da imprevidência, da inépcia administrativa e do descaso: deslizamentos de encostas, parte da cidade em escombros, ruas que viraram rios, centenas de desabrigados, histórias de partir o coração.

Onde Crivella revelou o caráter intolerante e violento que se esconde atrás da voz mansa de quem está sempre orando foi no seu gesto grosseiro e agressivo contra a repórter Larissa Schmidt. A cena foi fotografada. Ele acabara de acusar a TV Globo de “fazer drama com coisas corriqueiras”, quando ela retrucou: “perdão, prefeito, o senhor acha que o que aconteceu, a pior chuva em 22 anos, foi uma coisa corriqueira? Dez pessoas mortas, prefeito, desculpa”.

Nesse momento, irritado, ele vira de costas e diz: “não quero falar com você, é um direito que eu tenho”. Ele tinha esse direito, mas não o de agredi-la, empurrando-a com a mão. Se era capaz de fazer isso na frente de fotógrafos e cinegrafistas, imagina o que não faria numa entrevista sem testemunhas.

A imagem tornou-se simbólica: a mão do poder segurando o pulso da repórter que empunha o microfone de trabalho é uma sugestão visual de como deve ser tratada a imprensa. Ele se insurge fisicamente contra uma profissional que cumpria sua obrigação de transmitir o espanto dela e dos que acompanhavam a transmissão diante da afirmação de que aquelas tragédias eram “coisas corriqueiras”.

Em suma: tendo em vista esse seu comportamento destemperado durante toda a crise, o prefeito talvez seja caso não de impeachment, mas de interdição.

O Globo, 17/04/2019