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As ironias da história

Pouco antes de começar o julgamento pelo Tribunal Superior Eleitoral da ação que pede a cassação da chapa Dilma-Temer, quando escrevo esta coluna, os dois principais adversários políticos se encontram unidos, quem diria, pelo mesmo estado de espírito: a tensão da expectativa pelo que lhes pode acontecer. Depois da separação litigiosa, com certeza não esperavam se encontrar juntos numa mesma causa. E essa não é a única ironia dessa história. É engraçado lembrar que a ação foi proposta justamente por Aécio Neves, que hoje está submerso até o pescoço com denúncias de corrupção passiva, organização criminosa e obstrução da Justiça.

Naquele famoso telefonema gravado, ele confessou ao delator Joesley Batista, a quem pediu e de quem recebeu a módica quantia de R$ 2 milhões, que não esperava nada dessa ação, ou melhor, para usar uma de suas palavras impublicáveis, não esperava “... nenhuma”. “Foi para encher o saco deles” (PT e PMDB), explicou. O senador afastado sabe agora que seu destino, sujeito até a prisão, pode ser pior que o dos dois contra os quais concorreu nas eleições de 2014. Na época, Aécio exercia a presidência do PSDB, que hoje faz parte da base de apoio de Temer e, pra variar, está em cima do muro, dividido entre os que preferem continuar e os que querem saltar fora, diante da possibilidade de o barco afundar.

Nesse festival de divertidas contradições, há mais. Com que cara ficarão os radicais de ambos os lados, se o resultado for a dupla condenação? Se Temer acabar cassado, o que dirão os “mortadelas” que acusavam de golpistas os que aceitavam como legítimo o impeachment da presidente Dilma? E os “coxinhas”, que não engrossavam o coro “Fora Temer”, ao contrário, será que vão achar que dessa vez foi golpe? Pode ser que seja o fim do Fla x Flu político. Ainda bem.

Pelo menos uma lição ficará desse episódio: é que a história não é maniqueísta, é repleta de trapaças da sorte. E que, como reza o clichê, em política não há amizades, e sim interesses. E nem inimizades que os interesses não resolvam.

Quando Alice ouviu a avó dizer que um ex-presidente havia ligado pra mim, certamente para os cumprimentos protocolares de aniversário, ela não acreditou, exclamando: “Um ex-presidente ligou pra meu avô?!!” E, diante das fortes restrições da mãe ao governo do personagem, ela reagiu: “Não interessa! É um ex-presidente, é uma honra”. Ou seja, minha neta de 7 anos já cultiva os valores republicanos. O que ela quis dizer foi que o importante são as instituições, não os que eventualmente nelas ocupam um cargo. É uma sábia, vocês não acham?

O Globo, 07/06/2017