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Glauber Rocha, bárbaro e barroco

 

O cineasta nos ensinou que o grande cinema, em nenhum momento ou lugar, se fez ou se fará

Glauber Rocha não foi apenas um de nossos maiores artistas, pensadores e cineastas nos anos 1960 e 1970, como também um dos mais competentes revolucionários do cinema mundial. Se seus filmes e textos começaram por surpreender e encantar os brasileiros, sobretudo os mais jovens, terminaram por contribuir de maneira decisiva na grande transformação que o cinema conheceu em seu tempo.

Glauber foi uma fonte de energia indispensável naquela revolução cultural. Documentos e declarações, assim como os próprios filmes, por exemplo, de Martin Scorsese, Bernardo Bertolucci ou Jean-Marie Straub, cineastas tão diferentes entre si, trabalhando como tantos outros em tão diferentes níveis, dão testemunho do significado generoso do que Glauber filmou e disse. Todos eles se tornaram devedores do que leram, ouviram e viram desse gênio brasileiro.

No Brasil, o mundo editorial nunca deu muita bola para isso. Sempre preferimos livros sobre a vida romântica das estrelas ou, na melhor das hipóteses, as aventuras de judeus europeus filmando em Hollywood para escapar do nazismo. De vez em quando, ganhamos o presente de uma antologia do grande Paulo Emílio Salles Gomes, quando ficamos sabendo que não é pecado dizer que “o Estado não é feito para dirigir a arte mas para servi-la”. Ou então que “destituídos de cultura original, nada nos é estrangeiro, pois tudo o é”.

Dois livros publicados pela editora da Fundação Clovis Salgado, de Belo Horizonte, circulam por aí. Eles ilustram a mostra “Glauber – Kynoperzpektyva”, realizada na capital de Minas. Os títulos são “Crítica esparsa” e “O nascimento dos deuses”, organizados por Mateus Araujo, doutor em Filosofia e professor de Teoria e História do Cinema na ECA-USP, com a colaboração de Albert Elduque, Arlindo Rebechi Júnior, Claudio Leal, José Quental. Todos doutores, uns em Cinema mesmo, outros em Literatura Brasileira, Jornalismo, História. Da tradução comentada de “O nascimento dos deuses” ocupou-se Jacyntho Lins Brandão, professor emérito de Língua e Literatura Grega. O livro ainda traz desenhos de produção de Paula Gaitán, viúva de Glauber e mãe de dois de seus filhos.

O “Crítica esparsa” é uma antologia de textos de e sobre Glauber. Nele, encontramos tanta coisa que o cineasta nos dizia, com a convicção de que devia nos alertar sobre o que precisávamos fazer. Gestos tão generosos quanto impositivos, na certeza do que ia acontecer. Lá estão também as simplificações de seu papel,como no Pasquim, depois de sua morte, que o cataloga como “apocalíptico, bárbaro e barroco”.

“O nascimento dos deuses” é a íntegra do roteiro do filme sobre Ciro, a Lua do Oriente, e Alexandre, o Sol do Ocidente, que Glauber preparava para a RAI quando morreu. Com o projeto, a TV italiana pretendia estender uma programação que já tinha absorvido Roberto Rosselini e Pier Paolo Pasolini. Mas o filme de Glauber ficou no roteiro. Dizem que a RAI o recebeu e leu, mas preferiu não tocar o projeto para a frente, pois pretendia pedir modificações a um autor que já não estava entre nós.

Desde o início de 1981, estávamos todos preocupados com o “desaparecimento” de Glauber na cidade de Sintra, cidade histórica vizinha de Lisboa. Com o apoio de companheiros do Cinema Novo, fui a Portugal tentar trazê-lo de volta ao Brasil, para se tratar aqui, cercado de parentes e amigos que o amavam e procuravam entendê-lo. Minha missão foi um fracasso. Ele estava convencido de que, além da produção de “O nascimento dos deuses”, ainda tinha muito o que fazer na Europa. E, segundo ele, não estava interessado no Brasil, o que seus textos e declarações não confirmavam.

Entre tantas lições, Glauber Rocha nos ensinou que o grande cinema, em nenhum momento ou lugar, se fez ou se fará em paz. Temos que pensar nisso diariamente.

O Globo, 04/12/2021