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Fluxo Bruto

Impressiona o nível estarrecedor do debate estético, promovido pela polícia teológica do Congresso, porta-vozes da vanguarda do mais puro retrocesso. A resposta precisa ser dura e por vias judiciárias, porque o protofascismo em que vão imersos não conhece limites. Merecem igual atenção por parte da sociologia e da psiquiatria. Não seria tampouco inútil indagar a tímida presença da arte nas escolas. É um imperativo categórico recuperá-la para a cidadania.

 Feitas essas ressalvas, contra essa onda reacionária, convido o leitor para a exposição “Fluxo Bruto”, de José Bechara, no MAM-RJ, em cartaz até domingo. Seus trabalhos ocupam a sala monumental do museu, em grande escala, dialogando entre si, na clássica diversidade de textura e materiais utilizados por Bechara – lona e alumínio, madeira e mármore e os fascinantes vidros planos. A curadoria celebra os 60 anos do artista e mais de vinte de atividade criadora.

José Bechara é um artista inquieto, habitado por muitas vozes, e impõe a todas elas uma linha transversal, uma ampla técnica mista, que propicia séries de operações híbridas, como um poliglota inclinado às línguas que o assediam. A todas pertence, como um rebelde que não se afoga nos diversos suportes, antes se multiplica em cada língua, como se fossem espelhos de um mesmo rosto. E sem o risco da monotonia, de uma paisagem autocentrada ou previsível. Como nos rasgos de Lucio Fontana, Bechara institui um desafio temporal na superfície dos vidros sobrepostos, em variados tons de branco.      

Percebe-se uma relação delicada do artista com a matéria. Sem violentar o suporte, nem por isso perde a própria voz. É mais uma estética de sedução das coisas brutas para o seu território, em intensa migração. Volumes fortes, para não dizer dramáticos, flutuam no ar, como se um sopro de poesia extinguisse a força da gravidade, sustentados por uma nova estética do espaço, afixados, muito embora, por um guindaste, como as esferas “Ângelas”, que inauguram uma cosmologia parcial. 

 O retrato do artista enquanto jovem adquire outra espessura e se desloca para um estado ao mesmo tempo lírico e minimalista, que segue uma dimensão crescente e expansiva.  Não teme o vazio, antes sente-se por ele seduzido. Sofre uma intensa paixão da distância. Passa do horror ao vácuo para o seu encantamento. Se o espaço é protagonista, a distância é a sua medida, ou quem sabe a sua Musa.   

José Bechara ocupa um lugar definitivo nas artes plásticas de nosso tempo. Cada exposição é um ângulo diverso, uma soma de risco, ensaio e combate, mas sem perder a dicção poética, motivo diretor de sua oficina subjetiva.   

Sua obra ajuda a pensar nossa quadra, onde a barbárie parece dar as cartas, mediante a ostentação do arsenal da ignorância, dentro de uma democracia combalida, de baixo impacto. A inteligência da arte é uma luz intensa. Talvez aqui, uma ária da Flauta mágica, de Mozart:  Os raios de Sol expulsam a noite. 

O Globo, 01/11/2017