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Feliz Ano Novo

 

Resta pensar e discutir a política e os políticos, assunto cruel e pedregoso demais para festas de fim de ano

Quem acabou de completar mais um ciclo de muito trabalho, resultado de cálculos rigorosos e precisos que não podem falhar, foi a dupla de sempre – nosso planeta, a Terra, e sobretudo nossa linda estrela, o Sol, sem a qual não seríamos ninguém. Se não tivessem feito esse trabalho, por 365 dias ou quase, sem refresco algum, seria um desastre que poderia nos eliminar do cosmos. E, no entanto, somos nós que nos abraçamos (já pode?) e comemoramos com festa o feito, como se fôssemos os únicos responsáveis por ele.

Pelo bom funcionamento do fenômeno, não fiz mais que meu cachorro, um pequeno lhasa apso, cãozinho de origem tibetana que sempre late quando um ser que não seja de minha intimidade tenta acender a luz do quarto antes do combinado. E o combinado nunca é de 365 dias, tempo longo demais para quem só quer descansar mais um pouco da festa na noite anterior. No fundo, essa multidão que corre de um lado para outro, de uma praia para outra, de uma queima de fogos para outra, busca entender, sem explicação melhor para isso, sua necessidade de mudar alguma coisa para esse fim de ano.

Para o cronista, por exemplo, o fim de ano é uma mão na roda. Você não precisa de assunto mais objetivo do que os desastres que, todos sabemos, aconteceram no ano anterior. E os temas subjetivos, novos planos pessoais, podem perfeitamente passar por sonhos, já que o delírio está liberado nessa época do ano. Resta pensar e discutir a política e os políticos, assunto cruel e pedregoso demais para festas de fim de ano. Deixa a política pra lá, embora a gente saiba que dela depende o que todos seremos no ano que vem. Para discuti-la, não se trata apenas de discutir a ideologia que professamos, mas também a retidão de caráter com que a professamos. E aí, fica muita gente e muita coisa pelo caminho, mais do que se pode explicar.

Quando Jesus andou sobre as ondas e só os apóstolos que estavam lá viram, eles começaram a gritar de medo, sem sacar o que estava acontecendo. Jesus não sorriu de lado com o canto da boca, como um esperto prestidigitador de circo, nem criou artifício para enriquecer seu ritual. Ele disse serenamente a seus parceiros: “Não tenham medo, sou eu”, segundo a narração de um deles, Mateus. Você não precisa ser cristão, não precisa concordar com tudo o que ele pensou, disse e fez, para reconhecer em Jesus o fundador do pensamento Ocidental, o criador das ideias que constituem uma civilização que dura até hoje. Ele, por exemplo, nos ajudou a melhor julgar a vida e viver melhor quando separou claramente a piedade sem consequência da compaixão, essa capacidade de viver com o outro, dividir com ele suas e nossas dores.

Como escreveu outro dia Pedro Doria, nosso desejo é que os políticos brasileiros e a nossa esquerda democrática resolvam uma de suas maiores contradições, que “é gostar de empresário grande, mas ter horror a empreendedores”. Para sair do buraco em que nos metemos faz uma década, diz o nosso Doria, precisaremos muito de novas ideias. E o pessoal do lado de lá colabora com isso, não oferecendo resistência. Pelo contrário — só pensam em impedir a Argentina de socorrer os baianos, nunca visitaram um hospital de Covid ou família vítima da doença, estão pouco se lixando para a desigualdade, o desemprego ou a solidão que assolam o povo brasileiro.

Tudo o que desejo, nesse momento, é que 2022 passe muito depressa, coroado no final pela derrota prevista e quase certa desse psicopata no governo. Aí sim, posso desejar a todos, com toda sinceridade e o coração muito leve, um Feliz Ano Novo. Isto é, feliz 2023!

O Globo, 01/01/2022