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De repente, a corrente

Nesta minha volta das férias, durante as quais, digamos, os caminhoneiros aproveitaram para provocar uma crise de desabastecimento de combustíveis e de alimentos em todo o país, esvaziando prateleiras de supermercados e bloqueando estradas, o único a não fazer feio foi Neymar. Ao contrário, ele esteve “acima das expectativas”, como avaliou Tite, e nós, torcedores, concordamos.

É possível mesmo que essa unanimidade de satisfação com o craque e a seleção tenha ajudado a desanuviar um pouco o clima de desalento e incerteza trazido por uma ameaça de nova greve espalhada por mensagens de áudio e texto em redes sociais e WhatsApp. O governo teve que desqualificá-las como falsas e, por via das dúvidas, monitorá-las.

Ainda assim, os boatos continuaram. Nas feiras livres, os vendedores recomendavam aos fregueses que fizessem estoque, porque “a partir de segunda-feira” viria uma nova greve. Foi preciso que o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Sérgio Etchegoyen, viesse a público anunciar que o abastecimento de todos os itens estava normalizado e que não havia mais risco à segurança das estradas. Também prometeu que o governo usaria seu “poder de polícia” para garantir a redução de R$ 0,46 no preço do diesel. No entanto, persistia a inflação dos alimentos, que dobrara, e a dos transportes, que triplicara. Sem falar nas perdas. Só no setor dos bares e restaurantes do Rio, o prejuízo chegou a R$ 30 milhões.

Os efeitos negativos da greve dos caminhoneiros têm contribuído inclusive para a falta de entusiasmo com que a cidade e o país (não) estão se preparando para a Copa que começa daqui a pouco mais de uma semana. A esperança é que mais vitórias da seleção e gols de Neymar tragam o estímulo que está faltando. Um dos hinos que se apresenta como da seleção é interpretado por três artistas que falam em sonho, paixão e união: “Uma emoção que nos resume” (Anitta); “Uma paixão que nos une” (Thiaguinho); “Um povo que quer acreditar de novo que pode vencer” (Fabio Brazza)

Os mais pessimistas alegam que não adianta, que com esse governo é impossível, que a solução seria também “Fora Temer”. Não é bem assim, já que uma das mais bem-sucedidas Copas, a de 70, aconteceu quando o país era governado pelo ditador que inaugurou os “anos de chumbo”, o general Médici.

Mesmo assim, de repente, foi aquela corrente prá frente. O genial Miguel Gustavo fez o país cantar e viajar na fantasia de que tudo era um só coração. Não era. Muitos jovens ouviam o “Pra Frente Brasil” enquanto eram torturados. Uma lembrança oportuna para os que pedem hoje a volta daqueles tempos de horror e pesadelo.

O Globo, 06/06/2018