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Como fica a Lava-Jato?

Durante os últimos cinco anos, muitos acreditaram que Sergio Moro ia desmentir a afirmação de Nelson Rodrigues de que “toda unanimidade é burra”. Mesmo quando criticado por ter aceito o convite para ser ministro de Bolsonaro, ele contestou, seguro: “Pelo que vejo nas pessoas comuns, ninguém tem sombra de desconfiança”. Era dos poucos homens públicos a gozar da simpatia da maior parte da população, com exceção, claro, dos corruptos.

O que fez o popular juiz descer do paraíso em que encontrava para, senão o inferno, pelo menos o purgatório? A meu ver, foi a sedução — como no poema “A mosca azul”, de Machado de Assis —da glória suprema e do poder político, ou seja, a prometida vaga no STF, e uma ambicionada carreira política que poderia culminar, ao que se especula, com a perspectiva de suceder o chefe.

Vale a pena comparar a atitude de Moro com a de Joaquim Levy. Se este tivesse seguido o exemplo daquele, adotando um comportamento submisso, não teria tido sua cabeça a prêmio. Bastava desconvidar quem convidara. Não custa lembrar que, ao levar o primeiro puxão de orelha por ter chamado para sua equipe uma especialista competente, mas que não agradava ao presidente, o ministro da Justiça não titubeou, voltou atrás imediatamente. “A saída de Joaquim Levy é uma covardia”, acusou Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados.

Preocupa agora saber até que ponto a revelação das supostas mensagens trocadas entre o então juiz Sergio Moro e o procurador da República Deltan Dallagnol vai comprometer a credibilidade da Operação Lava-Jato. Todo cuidado é pouco, já que, ao que se supõe, outros diálogos ainda surgirão enquanto as investigações prosseguem. Em 2017, o ministro Luís Roberto Barroso advertia para uma “operação abafa” daquilo que seu colega do STF Alexandre de Moraes classificou como “o mais importante combate à corrupção já feito no país e conduzido dentro do devido processo legal”.

De qualquer maneira, como disseram dois professores, um da Universidade de Oxford, Ezequiel Ocantos, e outro de Harvard, Matthew Stephenson, “a Lava-Jato é maior do que Moro, Dallagnol e Lula”.

Flora, Midani, Lêda, Rossi, tanta gente boa indo embora. Tristeza.

O Globo, 19/06/2019