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Alunos de 13 anos entrevistam idosos de 70 a 90 e lançam livro cheio de reflexões

 

Terça-feira passada, descobri que sou um griô, segundo algumas populações africanas. Ou seja um contador de histórias. “Os griôs guardam e compartilham os saberes da comunidade, fazendo do envelhecimento um espaço de sabedoria, pertencimento e continuidade cultural”, explica Cida Bento no livro Escutar para Lembrar. Vou contar à Djamila Ribeiro, já que ela me nomeou Exu.

Mas que livro é este? Irá para as livrarias? Devia. Stella, minha neta, tinha me contado do trabalho de final de ano na escola dela, Rainha da Paz. Aos 13 anos, ela passou um período de curiosidade, descoberta e entusiasmo, ao lado de sua classe, sétimo ano, dentro do Centro de Acolhida Especial para Idosos (Caei). Entrevistando quem? Idosos, claro. Imagino eu, aos 89 anos, diante de uma jovem de 13, e me revelando, me questionando. Emocionado, me abriria, como se abriram aqueles entrevistados? Na última terça-feira, fui ao colégio para o lançamento do livro Escutar para Lembrar, resultado daquelas conversas. Drauzio Varella, Alexandre Kalache e Miriam Goldenberg, ídolos meus, deveriam dar uma olhada nesses diálogos. Essa idade não tem censura, nem medo de ser cancelada. Pergunta direto, pá! Sobre solidão, rejeição, complexos, angústias, saudades, frustrações, necessidades, sexo (sim, sexo), desprezo, relações familiares, esquecimento, abandono, amor. Sim, amor.

Organizado por Camila Tardelli da Silva, admirado por Viviana Bosi, patrocinado pelo Rainha da Paz, escola dirigida por Maria Claudia Minozzo Poletto e pela orientadora Pedagógica e Educacional Inara Martins Passos Pires, o volume tem intervenções preciosas de Cida Bento e Ecléa Bosi.

Estes jovens estudantes, diante de pessoas de 70, 80, 90, foram puxando solidão, preconceitos, fome, ódios, suicídios, racismos, abandonos, sonhos. Sim, ainda há sonhos na idade deles. Se todas as escolas, oficiais e particulares, tivessem esta coragem e este avanço, e os governos municipais, estaduais e o federal tivessem vergonha e projetos, seria um início de mudança na educação brasileira. No Rainha, naquela manhã inesquecível, quando souberam que o avô de Stella era escritor e cronista e da Academia Brasileira, me cercaram por curiosidade, carinho e respeito. Mas felizes. Percebi que essas coisas fazem parte do que é Academia de Letras. Estar dentro do processo cultural. Esse livro, Escutar para Lembrar, tem imensa importância. Que o Jabuti fique de olho nele.

Estadão, 14/12/2025