Sentei-me com uma trans, Amara Moira, pela primeira vez em Araraquara, e a segui fascinado por duas horas. Tempo em que ela foi me decifrando as “chaves secretas” do livro Ulisses, de James Joyce, que contém milhares de enigmas que, há décadas, desafiam e derrotam estudiosos do romance. Moira tornou-me a leitura compreensível.
Passados meses, recebi Transbordar, ainda “boneco” (gíria de arte gráfica para livro ainda não publicado), obra de Arthur Wolkovier, amigo que conheci na casa de Sueli e Ivo Sterling, amigos que produzem azeite de oliva em Cangalha, bairro rural de Aiuruoca, Minas Gerais. Após um almoço, mergulhei no livro de fotos e depoimentos que por anos foi o fulcro de Wolkovier. O universo trans. Obra-prima de pesquisa, seriedade, trabalho fotográfico. O livro fascina pela perfeição e dedicação. Principalmente pelo tema, trans, trabalhado com intenso cuidado.
Wolkovier, hoje com 80 anos, desde a juventude pisou em chão de fábrica, desistiu de ser empresário na juventude, dedicou-se a esportes radicais, viajou o mundo, cuidou de uma ONG, percorreu Ásia e África e, como fotógrafo, atravessou os palcos da dança e do teatro até se refugiar no universo fotográfico. O livro se abre com algo necessário, um glossário com os termos fundamentais para tratar do assunto. Sabe-se, entre outras, o que é ballroom, cisgeneridade, boyceta, não binário, pajubá. Aprenda a falar e a ser correto no mundo trans e será respeitado.
Todos os fotografados escreveram um texto. Selecionei poucos pelo espaço, cada um toca, questiona, comove pela realidade que desconhecemos. Alguns muito me tocaram. Como este de Suya Tatsuya: “Eu nasço, sou enterrada, nasço de novo. Somos natureza, sangue e flor e deusas sagradas… Todos os dias morremos, mas sempre renascemos”.
E Muna Scheuermann: “Consegui ter um gosto do que talvez seria um estado de normalidade para com meu corpo travesti dentro desta sociedade. Um momento de paz dentro de mim mesma”.
Saolla Angel: “Pude expressar tudo o que senti no início de minha transição, o peso de me reconhecer e me assumir como travesti neste país recordista em assassinato de nossos corpos. Deixe-me falar! Deixe-me dançar! Deixe-me sorrir! Eu apenas quero viver. Born this way”.
Keto (Pedro Mosqueto): “Trabalhar com Arthur foi maravilhoso. Ele capturou a essência do sofrimento autoimposto, a prisão que criei para mim mesma. Ele me permitiu expressar meu interior”.
Alguém precisa editar este livro.