
Filho leitor
Marcantonio, por esses dias, estaria a completar quarenta e sete anos. Nesta saudade que queima os pais em espécie de fogo lento, que dói sem cessar nas labaredas erguidas como soldados impiedosos, do que me lembrei?
Marcantonio, por esses dias, estaria a completar quarenta e sete anos. Nesta saudade que queima os pais em espécie de fogo lento, que dói sem cessar nas labaredas erguidas como soldados impiedosos, do que me lembrei?
As afortunadas comemorações deste ano ao redor de datas significativas em louvor de tantos nomes da Academia Brasileira de Letras, nunca seriam, nunca serão, uma etapa de meras alegorias de adulações ou simples anatomia de instantes.
O século 21 trouxe uma necessidade ainda maior de se ampliarem os trajetos no sentido de que a Academia Brasileira de Letra seja mais vista e ouvida. Há - e está bem aos nossos olhos - uma geração que parece ter nascido com controle remoto e mouse à mão. Basta um clique e a tela muda. Portanto, é vital que nos afinemos com os moços.
À margem do turbilhão de emoções da Copa do Mundo, que podem molhar os olhos ou acelerar o coração, e favorecido (para alguma coisa haveria de servir!) pelo isolamento parcial a que um acidente me condena, vou medindo e remedindo fatos a ela relacionados.
Venho acompanhando há mais de vinte anos a singular trajetória do Fórum Nacional, obra notável do grande brasileiro que é João Paulo dos Reis Velloso. Consolidado como espaço público dos mais relevantes para o debate de ideias e a formulação de propostas voltadas para o crescimento, o desenvolvimento e a modernização do Brasil, tem prestado relevantes serviços ao país.
O gesto de premiar, que nos premia também, pois, como ensinou Nabuco, nós somos quarenta, mas não somos os quarenta. É meritório reconhecer os valores que não são os da casa. Isto, mais que uma obrigação ética, é uma satisfação para os acadêmicos. Anotemos que entre os premiados há valores de muitos brasis e de diferentes gerações, selecionados em votação nas comissões e no plenário, a partir de pareceres subscritos por acadêmicos. Isto, em relação ao gesto de premiar.
A gente aprendeu que, etimologicamente, recordação é trazer de novo ao coração. Os pais de Marcantonio vivem eternamente na recordação. Trazemo-lo junto ao nosso coração, pois este é o ato sublime do amor.
Tenho insistido nas conversas descompromissadas com os confrades da Academia Brasileira de Letras no quanto é difícil saber ler.
Joaquim Nabuco vai instalar-se, feito em bronze, definitivamente na praça em frente à Academia Brasileira de Letras, ao lado de Manuel Bandeira. Pernambuco não poderia almejar mais. Seu grande poeta e seu grande escritor-político, imagens protegidas em bronze, ficam juntos, como espécie de guarda suprema da Casa de Machado de Assis.
Em dias da semana passada tive dois ricos encontros com Edgar Morin, na Escola Sesc de Ensino Médio. Conversa muito proveitosa para mim, a recolher o idealismo do pensador francês, que, às vezes, parece até idealista demais.
O papel da Academia Brasileira de Letras, em seus 114 anos de existência, sempre foi o de preservar e valorizar a memória nacional: a língua como instrumento do conhecimento e da convivência; as letras como reveladoras e formadoras da identidade do país, sem deixar de fora nada do que é humano — a ciência que reside no espírito, que observa e explica; e a poesia que habita a alma, que sente e compreende.
A lição de Machado foi tomada ao pé da letra pela exemplar Escola Sesc de Ensino Médio. Convocar os moços às tarefas da Cultura. Ele fez assim ao fundar, com Lúcio de Mendonça e outros, a Academia Brasileira de Letras. E mais: deu a traça do desenho acadêmico enquanto promotora e defensora da língua. "Caber-lhe-á então defendê-la daquilo que não venha de fontes legítimas - o povo e os escritores - não confundindo moda que perece com o moderno que vivifica". A Esem ao estimular a prática da leitura, a explicitação interpretativa de textos machadianos, a cargo dos " alunos, sabiamente orientados por professores competentes, serve tanto à preservação quanto à adequada veiculação do bom português. Penso que Antônio Oliveira Santos ao criar a Esem nem imaginava que ela iria tão longe, tornando realidade a aliança de tradições brasileiras com a modernidade dos tempos.
Leio as fartas notícias da exposição de Carlito Carvalhosa, no MoMA de New York. Dá-me orgulho, dá-me saudades. Orgulho e saudades de Marcantonio, o nosso TOM, meu e de Carmo.
O foco da Academia Brasileira de Letras em seus 114 anos de existência sempre foi o de preferentemente preservar e valorizar a memória nacional, a língua como instrumento do conhecimento e da convivência, as letras como reveladoras e formadoras da identidade do país, sem deixar de fora nada do que é humano, como a ciência que reside no espírito - a explicar o ob-servado - e a poesia que habita a alma, a senti-la e a compreendê-la. Logo, não poderemos ter uma cultura amnésica e um civismo estaladiço, feito apenas de muito verniz.
A observação é de Euclides da Cunha "É difícil lidar com a saudade? Cuidado com a saudade". A saúde é fogo lento. A dor do fogo vai queimando o coração, devagarinho.