Não é que nunca haverá outro Jaguar como o que conhecemos e que nos deixou no domingo (24). Em vida, já não havia outro como ele. Sua biografia, se um dia escrita, não se passará apenas nas mesas de bares e pranchetas de desenho em que ele se dividia, mas num emaranhado de contradições que formaram a pessoa fascinante que ele era.
Em jovem, expulso de sete colégios, Jaguar lia Rimbaud e vivia praticamente em francês. Ao prestar concurso para o Banco do Brasil, tirou zero em várias matérias, inclusive datilografia, mas foi aprovado pela média e, em mais de 20 anos de banco, revelou-se, não se sabe como, funcionário exemplar. Teve seus desenhos recusados por um diretor de jornal, Helio Fernandes, que os considerou "a pior coisa que já vira" e se achava com autoridade para dizer isso por ser "irmão do maior humorista do Brasil em todos os tempos: Millôr Fernandes". Já Millôr, mais autorizado do que Helio, foi o primeiro a proclamar a genialidade de Jaguar no desenho de humor.
Em 1969, Jaguar participou de um projeto impensável: seis meses depois de imposto o AI-5, fundar um jornal de oposição. O jornal, O Pasquim, só sobreviveu porque os censores custaram a entender o seu deboche –e, quando entenderam, perseguiram-no com cortes brutais, apreensões na banca e prisão da equipe. Mesmo assim, o jornal resistiu para ver o fim da ditadura.
Somando os veículos em que trabalhou, inclusive a Folha, Jaguar publicou mais de 30 mil cartuns, nenhum dos quais guardou em seu arquivo –arquivo que, aliás, não tinha. Desenhava-os em qualquer papel, mandava-os para a redação e, às vezes, nem os via impressos. E não os chamava de "cartuns", mas de "charges", que era o nome correto e mais digno da influência do grande chargista moderno, o francês André François, de quem ele foi o maior discípulo brasileiro.
Nos últimos dias, muitos lembraram suas noites com Jaguar nos botequins. Isso é fácil --eu próprio vivi inúmeras. Mas tive privilégio maior: sentado ao seu lado, vi-o desenhar.