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Um humanista

 

Conheci o professor Celso Furtado no início da década de 60, no tempo em que fui líder estudantil e presidia o Diretório Central de Estudantes da então Universidade do Recife.


Na ocasião ele se dedicava, com status de ministro de Estado, a uma desafiante tarefa que lhe confiara o presidente Juscelino Kubitschek: promover estudos com vistas a formular uma política de desenvolvimento para o Nordeste e constituir, a partir daí, uma instituição federal que a executasse.


O projeto, intitulado "Uma política para o desenvolvimento do Nordeste", envolveu uma equipe multidisciplinar mobilizada por Celso Furtado e por ele coordenada, representando a primeira iniciativa bem tecida de plano integrado para a região nordestina.


Destacaria dois pontos mais relevantes: a originalidade da proposta, por considerar que não era a seca o único problema da área, e sim o subdesenvolvimento a causa maior condicionante das reduzidas taxas de crescimento econômico e dos elevados níveis de desemprego e concentração de renda; ao lado disso, a criação da Sudene, pioneira autarquia federal destinada a coordenar e executar, em articulação com os Estados, programas econômicos, sociais e culturais sob a supervisão de um conselho deliberativo que se transformou em Parlamento regional, constituído de ministros, governadores, representantes de trabalhadores e empresários.


Furtado intuíra que as ações deveriam ser precedidas de consistente planejamento, ainda não exercitado com sofisticação técnica em nosso país, mormente no Nordeste. Preocupou-se dessarte em formar quadros para a Sudene e estabelecer enlaces com as universidades da região. Para esse fim, valeu-se da cooperação de instituições brasileiras e do exterior, inclusive Cepal, BID e Banco Mundial.


Roberto Campos, em 1992, ao analisar as obras de lorde Keynes e Frederick Hayek, observou que este costumava afirmar que "não era bom economista quem fosse apenas economista". Celso Furtado, antes de ser um economista, era um pensador social e, sobretudo, um humanista, atento gassetianamente a tudo o que dissesse respeito ao homem e sua circunstância.


Observe-se a propósito o que pensava Celso Furtado em entrevista no jornal "A União", da Paraíba, após sua eleição para a Academia Brasileira de Letras:


"Quando, finalmente, aos 26 anos de idade, comecei a estudar economia de maneira sistemática, minha visão do mundo já estava definida. Assim, a economia não chegaria a ser mais um instrumental que me permitia com maior eficácia tratar problemas que vinham da observação da história ou da vida dos homens em sociedade. Pouca influência teve a economia, portanto, na conformação do meu espírito. Nunca pude compreender a existência de um problema estritamente econômico. Por exemplo, a inflação nunca foi, em meu espírito, outra coisa senão a manifestação de conflitos de certo tipo entre grupos sociais".


Sua obra, especialmente a "Formação Econômica do Brasil", atesta a percepção metaeconômica - posto que social, cultural e política - de sua concepção do processo de desenvolvimento, combinando, assim, eficácia econômica e justiça social.


Foi, portanto, um humanista para quem nada do que era humano lhe era indiferente.


"Caio Prado, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Celso Furtado, Raymundo Faoro e precursores de gênio como Nabuco voltaram-se para essas estruturas do passado a fim de nelas encontrar a chave do presente", lembrou certa vez o embaixador Rubens Ricupero. E acrescenta: "A eles devemos as referências e os parâmetros obrigatórios para qualquer discussão ou balanço da experiência histórica brasileira".


Depois de haver, no governo do presidente José Sarney, sido colega do mestre Celso Furtado, ele ministro da Cultura e eu chefe do Gabinete Civil, voltei a ouvir, após o meu ingresso na ABL, as suas probas e densas lições, tendo sempre ao lado sua querida Rosa, que participava intensamente de sua vida, com amorosa e total dedicação.


No seu desaparecimento, resta o conforto de saber que a morte, como disse Rui Barbosa, "não divorcia, aproxima", e suas idéias continuarão a pervadir corações e mentes de quantos buscam consolidar a democracia e o desenvolvimento integrado do país.


 


Folha de São Paulo (São Paulo) 26/11/2004

Folha de São Paulo (São Paulo), 26/11/2004