Em dois artigos no fim do ano (25 e 26/12), perguntei-me por que as pessoas fumam e por que é tão difícil parar. Escrevi que, por ter aprendido como se dá a dependência, concluí que o "prazer de fumar" não existe —é só a satisfação da fissura provocada pelo próprio cigarro— e que fora feito de idiota pelos 37 anos em que acreditei estar fumando por prazer. Contei que, em janeiro de 2005, decidi que tentaria parar e, por conhecer como se dá a abstinência, sabia como seria difícil: meu organismo, surpreendido pelo corte da nicotina, iria me infernizar para que eu voltasse a supri-lo.
Leitores comentaram e contaram suas histórias, alguns afirmando que, ao resolver largar o cigarro, apenas o largaram e nunca mais fumaram —simples assim. Não duvido que tenham feito isso, mas, se foi tão simples, a explicação é ainda mais simples: se pararam com essa facilidade é porque não estavam dependentes.
Parar não é uma questão de querer, mas do estágio da droga, qualquer droga, no organismo. Instaurada a dependência (ou seja, quando o organismo, pelo uso contínuo de uma substância, já não pode passar sem ela), a droga que acreditávamos usar por prazer exige ser usada apenas para que não sintamos "desprazer" —a síndrome de abstinência.
A síndrome é a revolta do organismo pela interrupção do fornecimento, e seus efeitos variam segundo a droga. A do álcool, por exemplo, provoca tremor nas mãos, agitação, insônia, diarreia, confusão mental, convulsões, delírio, até parada cardíaca. A dos benzodiazepínicos, depressão, pânico, vômitos, convulsões, delírio, pensamentos suicidas. A do cigarro, fissura, irritabilidade, ansiedade, dificuldade de concentração, sudorese, insônia.
Em comparação, a do cigarro pode não parecer tão grave. E é a mais fácil de aplacar —basta acender um cigarro—, daí ser também a mais difícil de cortar. Mas se, em dias ou semanas, o organismo se convencer de que não haverá esse cigarro, a fissura passará. Apaguei o meu último há 21 anos e ainda não acendi o seguinte.