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O profetismo dos homens-bomba

 

A entrada de 2015 traz interrogações inéditas nas expectativas convencionais, diante do ano novo. Deparamos uma nova escalada do terrorismo, distinta de como a vivemos nas últimas décadas e, agora, à busca dos martírios de seus protagonistas. Os atuais homens-bomba a põem em causa à exaustão do dito consumismo, como a satisfação da existência, que caracterizou a modernidade. E é o que evidencia a inquietante militância de jovens americanos e europeus no Estado Islâmico, em busca de um testemunho, muito mais do que do desfecho de conflitos.

Ao mesmo tempo, e é o que hoje teme a Europa, o massacre pelos responsáveis do Charlie Hebdo passou a nova escala, pelas novas caricaturas de Maomé. Nem pode ser maior o temor das possíveis reações do mundo muçulmano em cadeia, em face dos fundamentalismos emergentes. E, de logo, surge a pergunta, diante da determinação desse mesmo Ocidente, a partir dos Estados Unidos, da radical extinção do Isis, pelos bombardeios maciços, destruindo fisicamente o califado: irá o movimento ao underground e se irradiará nessa rejeição, sem volta, de toda noção de ordem social em nosso tempo?

Só se ampliou, nestas primeiras semanas do ano, o adestramento da mocidade americana e europeia ao Isis, na rejeição sumária do que seja a convivência em nossos dias. Estamos a anos-luz do que representaram as quedas das torres, em 2001, mostrando a obsolescência do que representou, então, o protesto da Al-Qaeda.

Deparávamos, então, a resposta ao sufoco da diferença, trazida por séculos da dominância ocidental sobre as outras culturas. O recado de Mohammed Hatta e seus companheiros não excluía uma possível retomada da convivência internacional, superando o modo de ser imposto pelo mundo da técnica e da conformação totalizante ao dito progresso da vida contemporânea. O que vemos, agora, nos militantes distanciados do terrorismo de Bin Laden é a assunção de um nítido profetismo, a marcar, com seu sacrifício, uma virada de página definitiva do tempo que nos aguarda. E nasce – no nervo de um Ocidente rico e de uma nova geração – professando um inconformismo que se sabe, sem volta, à busca de novos paradigmas para a vida pós-moderna.

Na meninada das famílias-bem que ora se alista no Isis, desponta uma consciência a pôr em causa o repúdio do nosso decantado humanismo como tranquila civilização do futuro.

Jornal do Commercio (RJ), 06/02/2015