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O cão abandonado

Vi na rua perpendicular, de onde moro, na Praia do Canto, um cão negro abandonado. Disse-me o dono da banca de revistas que está seguidamente ali e não sabe nada de seu proprietário. Quando eu caminhava com Aicha na manhã, ele veio e brincou com minha cachorra, entre idas e voltas. Confesso, leitores, que se tivesse um pátio ou quintal, filiava aquele cão com rosto humano, rosto de quem foi deixado ao léu, como se pedra fosse ou coisa, ou chapéu velho jogado em terreno baldio. Sim, vi que o tal cão trazia rosto humano, que me tocava. Depois, por um brusco movimento, se foi. 

E mencionei que sua cara é humana, porque conhecida demasiadamente na república da vida. Às vezes tem certas feições desdenhadas e tristes, que se parecem ao meu povo neste governo vacilante, que toma sempre medidas após ter a casa arrombada, seja com os presos que foram mortos em Manaus ou Roraima, seja com os vivos que sofrem a carga de Imposto de Renda excessivo, sem retorno nenhum ao trabalhador. Ou o peso dos cartões de crédito com preço de oficial usura. Ou a alta no comércio de alimentos com a inflação continuada. 

O cão olhou-me como se me entrasse nos recessos, olhou-me pedindo socorro, cônscio de que eu podia agir a seu favor. Mas que poder o meu, pobre vivente? Os que possuem poder não veem, não alcançam ver. Foi-nos o cão acompanhando nas ruas, por ter intuído a difícil compaixão, ou esperança. Com olhos de um passarinho que caiu de seu ninho, sujeito ao ataque de estranhos.

Aliás, a República não sabe mais o que fazer de si mesma, a fala não condiz com a realidade e as promessas. É como se o cão adivinhasse tudo isso, a tal perplexidade dos humanos. Contemplo a Federação extraviada, os estados pedintes, como cães contentando-se com os restos discutidos, os restos ou parcelas que lhes pertencem. Famintos e prontos a morder as mãos dos senhores do destino. Esquecendo-se de que a União sem os estados é nada. Numa Brasília inventada para ficar distante da população. Ou para enfeitar o sonho imperial dos que nos regem. 

O cão que encontrei é mais piedoso, não só por ser necessitado, mas pela consciência do que padece, a inabalável consciência que não se move com a propaganda ou a bajulação. Ou com as atrasadas medidas de salvação. Ou a violência contagiosa e a banalidade da informação e do mal. Todavia, enganam-se os que julgam que o tal cão não vislumbra o mundo ao redor; ao contrário, fareja a maldade, fareja o ávido gosto de governar, a Justiça que protela ou negocia, a cobiça dos corruptos que infestam os cofres do bem comum, late, late até que os ditos rinocerontes se afastem, com patas frágeis de tanto delapidar o Erário.

O cão é puro na sua integridade, na sua penúria e fome. Quando um tutano de osso lhe satisfaria. Tão pouco, que a alguns da comunidade bastaria um bocado de terra para plantar, um bocado de flor para ornar a desatada existência. E aquele cão que conheci nas ruas da Praia do Canto tinha flor no canteiro da alma. Um flor dura e invencível.

O Globo, 13/01/2017