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Nossa exaustão ideológica

Na busca do “virar de página” na nossa vida política, delineia-se, de saída, o abate das lideranças conspícuas, sobretudo a partir das esquerdas. Aí está o processo do senador Lindbergh Farias (PT-RJ), afastando-o, por agora, de toda contenda. Da mesma forma, pergunta-se pela emergência do PSB, depois da morte de Eduardo Campos. O partido, nos seus atuais comandos, diverge na radicalidade do confronto com o status quo. O DEM, por outro lado, tenta congraçar os minipartidos, à custa do que possa ser ainda a semente do diferente ou do novo, que, via de regra, se gera nas pequenas legendas.

Confrontamos ainda a simetria do contraste no PMDB, no compor ou não a maioria do regime. Sem horizontes imediatos de virada, continuam as perplexidades sobre os muitos marcos críticos da futura diferença partidária, na tomada de posição sobre o controle do aparelho público, a redistribuição de renda, o acatamento orçamentário e a independência da política externa. Por força, também, nesse quadro, se esvazia o “centrão”, como frente do consenso mínimo, a assegurar as alianças e pactos chegados, hoje, às condições elementares da governabilidade. Deparamos, ao mesmo tempo, a simetria do confronto do PSDB entre manter-se no sistema e dele sair, sem horizonte. É nos movimentos sociais, entretanto, que se afirma, hoje, a descrença na capacidade efetiva de mudança.

O MBL exprime, cada vez mais, sua restrição ao voltar à rua, certo da pobreza do protesto, no que é acompanhado pelo MTST. E não é outra a posição da CUT, convicta do descarte das ruas, e buscando, já, a mobilização digital. Neste desmonte dos horizontes para 2018, só avulta a desaparição de toda a liderança emergente, a partir das governanças estaduais. Só evanesce, ao mesmo tempo, no abandono das apostas de Rodrigo Maia (DEM-RJ), o que fosse um chamado, de fato, para um novo formato partidário, o que não acontece na premissa do continuísmo evidenciado pelo “distritão”. O dado de partida, em todos esses vaticínios, ou na sua falta, é a permanência de Lula (PT), a que só fortalece a ofensiva de Moro, no que o petista permanece como a força do “outro Brasil”, seu totem e tabu.

Jornal do Comércio (RS), 21/08/2017