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A horrível cara do Brasil

 

O Rio Grande do Sul já elegeu um negro, Alceu Collares, para governador e prefeito da capital. Acaba de nos dar dois bons romances mostrando o racismo — sobre o assassinato de um professor negro pela polícia (“O avesso da pele”) e refletindo sobre o que significa ser pardo (“Marrom e amarelo”). Mas o assassinato gaúcho de João Alberto expõe a profundidade e extensão do racismo onipresente no país todo. Obriga a ir além da empatia e do afeto e compreender seus indissolúveis elos com nossa desigualdade estrutural.

A força da mestiçagem e da presença africana e indígena em nossa cultura pode ter ajudado a mascarar a entranhada persistência do racismo a negar oportunidades para os negros, relegados à pobreza. Nem mesmo conseguimos garantir educação pública universal e de qualidade, com recursos e docentes bem formados, para que a totalidade de pretos e pardos esteja em pé de igualdade com brancos para ocupar qualquer espaço.

Temos sido inundados por estatísticas sobre as disparidades sociais ligadas à etnia entre nós. Mas só agora, após essa barbárie no Carrefour, a mídia expõe outros dados: também as mortes de policiais negros são mais numerosas do que as dos brancos, acima da proporção de seus números na Força.

Ao examinar também esses números dos que matam, vemos a perversidade que está levando negros a se matarem mutuamente, além de serem vítimas dos brancos —um aspecto particularmente cruel desta situação demofóbica e racista entranhada que nega aos pobres proteção social e segurança. Há que reconhecer que a violência exacerbada e o crime impune hoje são a horrível cara do Brasil. Como o Saturno de Goya devorando os próprios filhos. Sempre covarde, o mais forte contra o fraco. Como sair disso?

Mas nem dá tempo de analisar. Logo Emilly e Rebecca já são barbaramente mortas, brincando em frente de casa. E Edson e Jordan em seguida, só por passarem perto de policiais — um deles, negro.

Desmontar o racismo, a violência e a impunidade, tudo junto, tem de ser nossa prioridade maior.

O Globo, 20/12/2020