Tenho escrito muito sobre Alfred Hitchcock neste espaço. Os americanos, ingleses, franceses e italianos, em seus respectivos espaços, também. E não se limitam a artigos em jornais e revistas. Morto desde 1980, Hitchcock é o cineasta mais estudado da história. Já são quase 200 livros a seu respeito (em francês, mais de 100), incluindo biografias, entrevistas, filmografias, making-ofs, memórias de colaboradores e ensaios sobre desde sua preferência pelas louras até o surpreendente fundo religioso —católico— de seus filmes.
É uma admiração justa. Incrível foi o menosprezo com que a crítica americana o tratou até os anos 1970. Considerava-o um brincalhão, um manipulador de plateias, raso e comercial —para ela, os diretores sérios, dos grandes temas, eram William Wyler, George Stevens, Fred Zinnemann, Elia Kazan. Mas, 20 anos antes, os franceses e até os brasileiros já viam em Hitchcock o que os americanos só passaram a enxergar muito depois. Hoje, naturalmente, Hitch é deles e ninguém tasca.
Um dos livros mais recentes, "Alfred Hitchcock Storyboards", de Tony Lee Moral, revela a técnica de que Hitchcock se valeu como ninguém: o storyboard, ou seja, a adaptação do roteiro em sequências de desenhos para orientar as etapas da filmagem, como cenografia, direção de atores, iluminação, angulação, filmagem propriamente dita, efeitos especiais, corte e montagem. Não era uma prática comum entre diretores.
Para Hitchcock, o storyboard representava a própria criação do filme, a ponto de, ao rodar uma cena, ele nem precisar espiar pela câmara —já sabia como a cena sairia. O livro traz fartos exemplos dos storyboards criados para "A Sombra de uma Dúvida", "Interlúdio", "Um Corpo Que Cai", "Intriga Internacional", "Psicose", "Os Pássaros" etc. Por eles, ficamos sabendo da arte de Oscar Werndordf, Dorothea Holt, Henry Bumstead, Robert Boyle, Saul Bass e outros de seus desenhistas, autores dos storyboards.
Os lápis estavam nas mãos deles. Mas o que ia para o papel saía da cabeça de Hitchcock.