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Era uma vez o digital

 

Acabo de ler uma declaração apavorante do físico americano Michio Kaku: "A computação quântica mudará tudo. Os computadores quânticos serão bilhões de vezes mais rápidos e mais assertivos do que o computador digital". Já me assusto com tudo que seja "assertivo", palavra que, usada hoje como se fosse banana, não se sabe mais o que significa. Mas o pior é: para que essa pressa toda? Logo agora que achávamos que o computador digital viera para ficar, somos informados de que ele ficará tão superado que não poderá ser usado nem como ábaco.

O que significa um computador "bilhões de vezes mais rápido"? Como uma coisa pode ser bilhões de vezes mais rápida do que outra? Como medir a velocidade em bilhões? Até há pouco, a coisa mais rápida de que eu tinha conhecimento era a ejaculação ultraprecoce que me foi tristemente confessada por um amigo. Talvez ele se anime ao saber que a do computador quântico será mais precoce ainda.

Segundo Kaku, o computador quântico terá várias vantagens. Será capaz de "quebrar" —decifrar— em microssegundos o código digital de empresas de seguros, bancos, governos e até do Tesouro dos EUA. Temos de concluir que nenhum cofre estará a salvo, embora me escape o que ganharemos com isso. Outra é de que ela permitirá a fabricação de uma lente de contato com a qual, se você se interessar por alguém numa festa, poderá, num literal piscar de olhos, "baixar" a biografia da pessoa e, talvez, até descobrir a cor de suas calcinhas.

Que Kaku é "assertivo", não duvido. Além de físico, é "pensador futurista", autor de livros de ficção científica e apresentador de programas de televisão dedicados à ciência.

Só me tranquilizei ao lembrar que, no Brasil, não faz muito, suspirávamos pelo sistema 4G, já corriqueiro em outros países enquanto seguíamos com o pré-histórico 3G. Pois hoje temos o 5G e, quando ele falha, as pessoas resmungam, "Saco, estou no 4G!", como se este fosse um contemporâneo da manivela. Daí que, um dia, o computador quântico também será movido a manivela.

Folha de São Paulo, 08/02/2026