É irresistível. Não consigo parar de escrever sobre Bolsonaro. Meus fiéis leitores bolsonaristas me acusam de ter uma fixação por ele, talvez até de natureza imoral. Eu responderia que meu interesse por Bolsonaro é o mesmo que o dos herpetologistas pelos répteis que estudam —e, por acaso, há algo de fisicamente réptil em Bolsonaro que fascina seus seguidores. A diferença é que os répteis são nossos irmãos e até o veneno que destilam para se defender é usado pela ciência em nosso benefício. Já a peçonha de Bolsonaro quase foi mortal para a democracia.
Daí ser obrigatório estudar Bolsonaro. Ele não é um espécime isolado, mas toda uma espécie, como a dos queridos artrópodes —aranhas, escorpiões, ácaros. A dele é a dos bolsonaros. Precisamos classificá-los, determinar em que charcos ideológicos nascem e de que toxinas se compõem, para impedir que se expandam em flagelo. Para isso, precisamos de herpetologistas políticos, com botas de cano alto, dispostos a chafurdar nos alagados da nação.
Ou, como modelo de análise, podemos usar Donald Trump, que não sai do noticiário. Há algo de familiar na capacidade de Trump mentir, ignorar instituições, rasgar acordos, subjugar aliados, trair amigos e proferir absurdos, dos quais recua hoje de propósito para retomá-los amanhã, sempre ganhando espaço e poder. Para ele, os valores morais e humanos que se danem. Já vimos isso em Bolsonaro, só que em escala piolho.
A razão de Trump parecer imparável é que, como nunca imaginaram tal perfil de governante, os EUA não criaram anticorpos capazes de combatê-lo. Seu povo ainda não percebeu que está às vésperas de uma ditadura, cuja costura Trump começou a urdir no primeiro mandato.
Assim como os bolsonaros, os trumps não se resumem a um indivíduo. São também uma espécie e muito mais perigosa, por seu alcance de destruição global. Mas não podemos descuidar do nosso brejo. É um rico ecossistema, de alta concentração de vida e, por isso, sujeito às espécies transmissoras da morte geradas em seu âmago.