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Duas américas

 

A expressão "duas Américas", do título deste artigo, comporta dois distintos sentidos. Significa, no seu sentido mais amplo, que o mesmo nome "América" abrange duas realidades, não apenas geograficamente diferentes mas, sobretudo, culturalmente diversas. Utilizar uma designação comum para as duas Américas é um artifício verbal que se destina a camuflar a profunda diferença que separa a América do Sul da do Norte, de sorte a facilitar o predomínio desta sobre aquela.


"Duas Américas", por outro lado, é uma expressão que indica outra importante dualidade, a que distingue a América Latina da América do Sul. Em meados do século recém transato, América Latina designava uma rica e efetiva realidade. Referia-se à profunda comunidade de valores, de interesses e de possibilidades existentes entre todos os povos latino-americanos que constituíam, a despeito das pequenas diferenças que separam as duas línguas da região, uma grande unidade geocultural. Nada mais apropriado, assim, que o projeto de integração latino-americana sustentado pela Cepal de Prebisch e pelo Banco Inter-Americano de Felipe Herrera.


Ocorre, entretanto, que o processo integrativo, no curso do tempo, tomou rumos distintos. Em vez da integração latino-americana, que se conservou no domínio da retórica, o que se realizou foi a integração do norte da América Latina, expressamente México, com os Estados Unidos, mediante o acordo Nafta, que instituiu uma área de livre comércio entre os Estados Unidos, o Canadá e o México.


A despeito das características profundamente assimétricas que diferenciam a economia mexicana da norte-americana, o acordo conduziu à mais ampla integração daquela com esta. O que tem permitido ao México preservar, ainda que com crescentes dificuldades, sua identidade nacional, é sua extraordinária riqueza cultural, tanto popular como erudita. Por quanto tempo?


Se essa problemática for medida em função do México do presidente Fox, ex-presidente internacional da Coca-Cola, as expectativas não podem ser de longo prazo.


Se, como importa fazê-lo, essa questão for avaliada em função do México profundo, esse mesmo México que deverá derrotar o presidente Fox nas próximas eleições, as expectativas são animadoras. Para que se mantenha a identidade nacional e cultural do México "tão distante de Deus e tão próximo dos Estados Unidos" é necessário, além da grande densidade da cultura mexicana, que se consolide a unidade cultural da América Latina.


A América Latina não é mais um sistema susceptível, como um todo, de integração econômica e política. Essa possibilidade atualmente se restringe à América do Sul. Mas a América Latina continua sendo uma grande realidade cultural cujos três principais pilares de sustentação são México, Brasil e Argentina.


A América do Sul necessita continuar contando com o inestimável aporte da cultura mexicana. Para tanto, é indispensável que empreste todo seu apoio à preservação da identidade nacional e cultural do México. Mas, para isso, é igualmente necessário que não se camuflem as profundas diferenças econômico-políticas que diferenciam a América do Sul, que tem seu núcleo básico no Mercosul, do México e da América Central, que gravitam em torno dos Estados Unidos.


O recente fracasso da 4ª Cúpula das Américas constituiu uma indicação extremamente positiva da medida em que Mercosul e Venezuela, ora em vias de se integrarem no tratado de Assunção, têm consciência de seus próprios interesses e não se deixam levar pela armadilha da Alca. Esta outra coisa não é senão o propósito de incorporar a América do Sul -leia-se, Brasil, Argentina e Venezuela- ao sistema Nafta, convertendo seus países em novos satélites dos Estados Unidos.


Ressalta, ante os fatos em jogo, a maliciosa puerilidade da ameaça do presidente Fox de constituir uma Alca compreendendo EUA, México, América Central e alguns outros países, sem Mercosul nem Venezuela. Como se essa Alca já não existisse atualmente sob o nome de Nafta.


É indispensável, neste início de século, que conduzirá a uma nova e duradoura reorganização do sistema internacional, que Mercosul, por um lado, acelere a incorporação da Venezuela e proceda à efetiva consolidação do grupo mediante a adoção de um programa industrial comum. É igualmente necessário, por outro lado, terminar com as mistificações de uma presumida unidade pan-americana. Há muito menos unidade entre a América do Sul e os EUA do que entre aquela e a Europa latino-germânica.


Uma grande tarefa nos aguarda: converter a recém-constituída Comunidade Sul-Americana de Nações em uma realidade economicamente operacional. Para tanto importa, desde logo, consolidar economicamente o Mercosul. E para tanto, finalmente, importa transferir a aliança estratégica argentino-brasileira do plano declaratório para o operacional. Uma vez mais, importa adotar um programa industrial comum. É algo que se impõe com a maior urgência.


Se dermos conta dessa tarefa, conferiremos aos países da região um perdurável destino histórico próprio. Se não o fizermos, seremos, a prazo bastante curto, reduzidos a um conjunto de países historicamente irrelevantes.


Folha de São Paulo (SP) 11/11/2005

Folha de São Paulo (SP), 10/11/2005