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Calamidade

A lágrima tem a dimensão do sonho, “Letícia, crês nos sonhos?”.

“Mais. Creio no vento que me leva.

E eu a contemplava, estava encolhida, úmida como dois grandes e alvos sapatos sobre escuro nicho.

“Estou dividida!”, confessou. “Sou amiga da Polícia Militar de Vitória, preocupei-me com a notícia sobre a saúde do nobre governador, a quem estimo e admiro, amo este povo”.

Retruquei, com certo ar solene: “Não podemos aceitar o avanço da barbárie, depois do processo de civilização, o avanço do caos sobre a ordem.

Nem cabe deixar o crime e o assassinato dominarem o reduto da lei. Porque não se lava o crime”.

A Nuvem continuava, com olhar suspiroso, enquanto o cão Desidério, com um resto de osso, no canto da sala, latia. E corria atrás do osso, cambaleante.

E advertiu: “A Polícia Militar tem notável tradição de serviços à população capixaba. Não pode abandonar seu destino. O passado deve ser o presente e o presente, futuro. E no dizer de Salomão: “O ânimo sereno é a vida do corpo”.

Mas não me dei por rogado: “A maldade atacou em vários flancos. Escolas e universidades fecharam, templos encerraram seus cultos, houve saque de lojas, supermercados, mortes se atropelaram. A maldade não tem inteligência, age de emboscada, impregna ouvidos e alma”. Atinei num relâmpago.

E relâmpago branco era a Nuvem. “Tantos mortos, quem os ressuscitará?”.

Olhou em volta e ali andava Desidério, o cão, inebriado com o sabor de um tutano, que pulava como se tivesse pés, focinho metafísico. E não é ele por acaso o cão do gênero humano? Quem o reconhece?

Mas num repente a Nuvem, em tom severo, alertou: “A vida é mais feroz do que o extermínio, a lei mais próspera do que o desespero. Cada comunidade escolhe a forma como quer existir. E a liberdade não encolhe nunca sob a palavra e a palavra jamais encolhe”.

E eu concluí: “A centena de mortos, desde o solar das tumbas, pede justiça, haverá justiça suficiente para tamanha morte?”.

A Tribuna (ES), 26/02/2017