Liberdade talvez seja a palavra mais dita por Rosiska Darcy de Oliveira na hora e meia de entrevista que concedeu ao GLOBO na Academia Brasileira de Letras, no Rio, na última quinta-feira. É também o título de um livro publicado por ela em 2021, uma coleção de ensaios contra a intolerância e o obscurantismo. E está nos versos do “Romanceiro da Inconfidência”, de Cecilia Meireles, que Rosiska recita como a melhor definição de... liberdade.
— A vida toda eu defendi, e continuo defendendo, a liberdade de cada um escolher a sua vida e com quem quer viver. E que ninguém se meta com isso! — diz ela, que lança hoje, às 19h, na Livraria Janela do Shopping da Gávea, na Zona Sul da cidade, o livro “Rosiska, uma fotobiografia”.
As centenas de imagens do livro contam décadas de militância política, criação literária e acadêmica e o desenvolvimento de políticas para mulheres. Rosiska passou 15 anos exilada por denunciar a tortura nos porões da ditadura, é doutora em Educação, autora de dezenas de livros e presidiu o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, embrião do ministério, no governo de Fernando Henrique Cardoso. Desde 2013, ocupa a cadeira 10 da ABL.
— A minha geração protagonizou e assistiu a uma coisa extraordinária que foi, e eu não tenho medo de ser grandiloquente, a quebra de um paradigma milenar. As mulheres, que eram tratadas hierarquicamente como subalternas, emergiram em estado de rebelião contra essa submissão. No primeiro momento, leu-se isso como “as mulheres querem ser iguais aos homens”. Eu escrevi um livro na época, “O elogio da diferença”, que dizia que homens e mulheres não são iguais. A base da igualdade é o reconhecimento dessa diferença.
Mais do que uma curadoria de imagens de uma vida rica, a fotobiografia de Rosiska é um trabalho de memória, um raro registro documental do feminismo brasileiro, sobretudo da luta política que a partir dos anos 1970 culminou na inclusão da igualdade de direitos na Constituição de 1988. Uma história que, Rosiska lamenta, o Brasil não tem organizada.
— Não temos, mas deveríamos ter porque há momentos épicos. Eu não saberia contar tudo, então contei a minha contribuição. Dos anos 1970 para cá, testemunhei de corpo presente todo o desenrolar do movimento — diz. — O importante é entender a lógica dessa história. Pensar que se tentou debochar, minimizar e humilhar as feministas, o que só mostra o abismo de ignorância que nasce do medo de encarar que o reino deles estava acabando.
Aborto e eutanásia
Mas se o reino que hierarquizou homens e mulheres estava acabando, como explicar as estatísticas de feminicídio que o Brasil insiste em manter entre as mais altas do mundo? Rosiska, é bom lembrar, é coautora, ao lado de Leila Linhares, do primeiro livro brasileiro sobre o tema: “Os direitos da mulher: a violência doméstica”, de 1984.
— Sempre houve violência contra as mulheres. Ela não era visível porque ninguém metia a colher. De lá para cá, aconteceram protestos, delegacias de mulheres, a Lei Maria da Penha — diz ela, ressaltando que o que vemos hoje não aconteceu por acaso. — Desencadeou-se, sobretudo, por meio de uma extrema direita que fala ao coração dos homens, instrumentalizando o medo deles. É um “vocês estão pensando que vai ser assim?” combinado com a frase “regret nothing” (“não se arrependa de nada”) exibida na camiseta.
Para Rosiska, a chamada pauta de costumes é, na verdade, um incitamento ao ódio contra as mulheres. Uma pauta que inclui a interdição de duas liberdades que são caras a ela: o direito ao aborto e à eutanásia.
— Sou favorável a que se despenalize o aborto, e acho que a única pessoa que decide sobre isso é a mulher. Ela não vai ter um filho do Código Penal, do Congresso Nacional ou da Igreja. É no corpo da mulher que se dá a gravidez, não no do homem, então só ela pode decidir — explica Rosiska, para quem a eutanásia também deveria ser discutida no Brasil. — Gostaria de poder escolher até quando eu vivo. A morte do meu grande amigo Antonio Cicero me machucou profundamente, mas eu tenho um grande orgulho da coragem dele. Acho indesculpável que tenha tido que atravessar o Atlântico e pagar porque não queria mais viver nas condições que se ofereciam a ele — explica.
Grandes amigos, como Cicero, não faltam a Rosiska. Três organizaram a fotobiografia: a jornalista Cristina Aragão, a ex-ministra do meio ambiente Izabella Teixeira e a historiadora Maria Celeste Garcia. Os textos são de livros e discursos da escritora e, entre as tantas imagens, há muitas feitas por Miguel Darcy, com quem Rosiska é casada há 58 anos.
— Eu sempre me cerquei de afetos, e acho difícil construir uma trajetória libertária sem uma opção de felicidade. Você tem que estar disposta, evidentemente, a pagar os preços, que são altos — explica ela, lembrando que a teoria feminista nasceu do companheirismo. — Começou com uma confidência politizada entre amigas, os chamados grupos de consciência. Nós nos reuníamos para falar da nossa condição de mulheres, de tudo aquilo que parecia um problema individual e era tratado como neurose. Juntas, percebemos que neurótica é a sociedade.
Neurose da sociedade
Na sociedade neurótica que colocou o trabalho doméstico nas mãos das mulheres, Rosiska diz que é preciso ir além do fim da escala 6x1, com todos assumindo o valor da vida privada como o mais importante:
— A minha geração entrou para o mundo do trabalho mas não negociou a vida privada, como se isso não representasse tempo. Depois, veio a ideia do salário pelo trabalho doméstico, o que é uma loucura. A natureza do que se faz na vida privada não é remunerável. A questão é: por que só as mulheres fazem as coisas gratuitas? Educar um filho ou cuidar de um idoso tem que ser compromisso dos homens também, de toda a sociedade.
Mulheres da geração de Rosiska agora quebram outra neurose da sociedade, o envelhecimento. Ela nunca fez plástica nem pintou o cabelo (“É uma batalha perdida”) e acha que lhe foi oferecida uma terceira vida. Continua querendo liberdade e felicidade e ainda planeja escrever muito. Diz que sua geração viveu tanta coisa que está pronta para assumir a autoria desse futuro prolongado. Para quem a chama de “imortal”, ela se define como “feminista, escritora e mortal”.
— Eu não sou louca, claro que sou mortal. Não são os autores, mas suas obras é que são imortais. Mas é claro que quem escreve quer a pretensão de ter mudado alguma coisa, de saber que a minha existência como escritora teve algum efeito no mundo. Enfim existe uma força estranha que leva um a cantar e o outro a escrever. Eu nasci com ela.
‘Rosiska, uma fotobiografia’
Organização: Izabella Teixeira e Maria Celeste Garcia. Coordenação editorial: Cristina Aragão. Editora: Pinakotheke. Páginas: 320. Preço: R$ 160.